UNIVERSIDADE FUTUROLOGISTA OPERACIONAL DO PARÁ – UFOPA

Gilson Costa[1]

Nada como o mundo real. Nada como a vida real. Para mostrar a realidade, realmente, para quem não quer ver (redundante, propositalmente). Segue uma pequena reflexão. Não se aborreça, prometo ao leitor ou leitora que ao final irá ter um momento de riso, relaxar. Primeiro.
Leitor, leitora, preste atenção: Não é qualquer Universidade, uma dessas UNIESQUINAS da vida, que está “mendigando” calouros/as para preencher suas vagas 2011. Não, é uma FEDERAL! PÚBLICA! Porém, “INOVADORA!?” Inovadora que o desastre está aí. Avisamos...

Os calouros e suas famílias, obviamente, estão preferindo se inscrever na UEPA, e nas particulares, por quê? Além da bolsa, têm certeza que sairão de lá com uma FORMAÇÃO PROFISSIONAL, em ALGUMA PROFISSÃO (novamente redundante, propositalmente), de qualidade ou não, pode até ser questionável, mas diante da UFOPA que temos, tenho cá minhas “dúvidas”. As famílias e seus calouros/as querem ter um razoável grau de certeza, normalmente somos conservadores. Portanto, desejam que os seus saiam com um diploma em uma formação que tem validação no mercado de trabalho. NÃO QUEREM AVENTURAR, passar cinco anos para sair com uma deformação transgênica pseudo-interdisciplinar, um diploma que indica que saiu da UFOPA com uma possível resposta, honesta, a quem perguntar sobre sua formação/profissão: "sou formado em alguma coisa, parecido com algo qualquer, que me preparou pra qualquer coisa, inclusive pra ser o que eu não sei o que sou mesmo!" Ao terminarem seus cursos, nossos meninos e meninas vão entrar em crise, bem, os que resolveram entrar nessa aventura e seguirem até o final. Outra opção, que se diga, para os/as/ calouros/as, suas famílias e nós docentes e técnicos, será se juntar e avançar na proposta de uma projeto, programa, ALTERNATIVO:  A universidade que queremos.   

Caros, sinceramente, os estudantes e suas famílias são coerentes, as elites ricas, e principalmente, os trabalhadores, não podem se dar o luxo, diante da gigante crise econômica que se avizinha (incluindo a resolução do Governo Federal de cortar R$ 50 Bilhões no OGU de 2011, suspensão de concursos, novas contratações e editais, etc.), arriscar a formação e a vida futura de seus filhos e filhas. Ninguém quer ser objeto de laboratório, grupos de cobaias, fazer parte de experiência menguelista, pseudo-educacional. Eu, professor dessa universidade, UFOPA – que bem poderia ser chamada de UNIVERSIDADE FUTUROLOGISTA OPERACIONAL DO PA – UFOPA, não indiquei a UNIVERSIDADE FUTUROLOGISTA OPERACIONAL DO PARÁ, ao meu filho, ele passou no vestibular 2011 da UFPA, em Belém.

Ninguém, de fato, sabendo qual é o projeto de formação que lhe espera, nem uma família sã, vai querer essa mistura – rala-salada-maníaca de áreas disciplinares, profissões, ciências, que possuem status, categorias, objetos, marcos científicos, bem distintos e/ou em elevado grau de distinções entre si. É preciso, necessário, fundamental, lógico, uma formação específica e integral, que seja universal, porém que aprimore o indivíduo, nossos jovens, em uma formação específica, concretamente, para ir disputar uma vaga real no mercado real de trabalho. Pronto.

As pessoas reais, na vida real, vivem como ela é de fato, portanto, querem um diploma que permita se inscreverem em suas respectivas ordens/conselhos/categorias/sindicatos/associações profissionais... Objetivam fazer concursos e trabalhar como: ADVOGADOS, PEDAGOGOS, HISTORIADORES, MATEMÁTICOS, FÍSICOS, BIÓLOGOS, QUÍMICOS, LINGUISTAS, FILÓSOFOS, ENGENHEIROS, GEÓGRAFOS, ANALISTAS DE SISTEMAS, etc., porém, com uma formação geral, universal, culta, que lhes permitam viver e ter o prazer de dialogar com distintas formações, culturas, modus operandis da e na vida moderna, com tudo que se exige para assumir uma posição profissional, social, econômica, política, filosófica, etc. Esse modelo acadêmico da UFOPA, não é interdisciplinar, sim uma fraude, uma aberração, no mínimo um grande equívoco inexplicável!
 Por que será que a UFOPA, não conseguiu preencher suas míseras 1.200 vagas em cinco chamadas? SERÁ QUE A ELITE, E TODO MUNDO ESTÁ ASSUSTADO COM O MONSTRO QUE ELES CRIARAM? Olha o desespero dos mentores do monstro. Pensam que as pessoas são tolas? Não, os amazônidas, caboclos/as, são muito sábios, vivem aqui, VIVEM, MORAM. E os que adotaram essa região pra viver, trabalhar, ser feliz, também não são nada imbecis. Não!

A direção da UFOPA vai ter que recuar, rever o projeto deles, abrir diálogos conosco, a comunidade acadêmica, os movimentos sociais, a sociedade da região. A  vida social se faz de forma coletiva, não se pode, nunca, querer impor um projeto de universidade com tamanho grau de risco, incerteza, laboratório aberto, e dizer com isso que é "inovação educacional", etc.  A USP, UNICAMP, UFPA, UFMG, UFRJ, UNB... HARVARD, BERLIN, BONN, PARIS, CALIFORNIA, SORBONNE, PRINCETON, LISBOA, QUEBEC, CUNY, MADRI, BARCELONA, etc., não são assim. Se as melhores e maiores UNIVERSIDADES do país e do mundo, NÃO SÃO UFOPIANAS, porque justamente nós, os povos da Amazônia e os que estão aqui e vieram para construir suas vidas e a região, mais uma vez, vamos ter que “sustentar”, “agüentar”, “vivenciar” esse modelo esdrúxulo: menguelista-pseudo-educacional?! Não somos cobaias intelectuais para quem vem nos colonizar! Existem, ao menos, três excelentes centros na Amazônia, que já possuem tecnologias mais que testadas para nossas realidades (NAEA, INPA, GOELDI), não precisamos dos velhos de Brasília pra nos ensinar. Ademais, estamos há 12 mil anos por essas bandas! Arqueologia está chegando perto de descobrir que talvez mais!

Iremos “aceitar”, novamente, os projetos mais mirabolantes, destrutivos social, econômica, cultural e ambientalmente para e na Amazônia? Já não nos bastavam/bastaram às experiências de “desenvolvimento” do “progresso” das “inovações” via “Aliança para o Progresso”, os Programas e Projetos como PND, PIN, desde os resultados e financiamentos da SUDAM, BASA e BNDES que datam da era militar e/ou antes? Não se lembram dos estragos, do ponto de vista social, econômico, cultural, ambiental? Projetos materializados na Transamazônica, Carajás, Serra Pelada, UHT, BALBINA, JARI, etc., por exemplos? E agora com o fabuloso PAC I e PAC II, do Governo Lula/Dilma: Belo Monte, Complexo Hidrelétrico do Tapajós-Arapiuns-Jamanxin, BR-163, IIRSA e Pólo Agropecuário, Concessões Florestais Públicas (leia-se: destruição, entrega do patrimônio dos amazônidas às madeireiras!), todas as demais intervenções desde Brasília? Melhor, do Banco Mundial, do Fórum de Davos, da OMC, do FMI, megas-multis-transnacionais, incluindo, “nossas” “queridas” Vale, MRN, Cargill, Alcoa?

Então, a UFOPA, é só mais uma Universidade Operacional Futurologista. Criada no Oeste do Pará para a demanda do “futuro” (sim, há pessoas videntes, cartomantes na UFOPA, “cientistas-futorologistas”, com publicação e tudo, acredita?! Capazes de se orgulhar disso). Sim, no presente, já sabemos que esta é uma fronteira aberta a gana do capital, da burguesia e seus sócios, aqui está em curso um franco processo de faroestização! Está nítida para nosso povo a exploração: as mineradoras estão aí, as madeireiras, as hidrelétricas, os sojeiros, etc.

Bem, porque reclamar disso? Bem, essa é a realidade, e nem pra essa realidade presente, de um capitalismo tosco, grosseiro, rudimentar, indústrias de pequena ponta tecnológica, etc., a UFOPA, com a atual Estrutura Acadêmica serve melhor ao próprio capital. É lamentável que nem aos seus adestramentos previsíveis, melhor o fazem aos nossos jovens trabalhadores da Amazônia, nestes tempos de “tudo pós”, era “pós-fordismo” (mas nem tanto, aqui principalmente, onde ainda há inclusive trabalho escravo – coisa pré-capitalista!), “pós-toyotismo” (muito menos, esse sim, se aqui nem bem capitalista é na íntegra, há apenas alguns “enclaves” industriais e rudimentos de capitalismo-escravista, etc.). A quê/quem mesmo serve?!  

Bom, não vamos tirar todos os “méritos”. Tudo o que esse modelo acadêmico imposto na atual UFOPA, quer de fato, construir um ser super-hiper-alienado. Onde educandos/as, devem ser adestrados para caber no exato modelo para o mundo do “novo industrialismo”, que requer a reestruturação produtiva do capital, assentada na tecnologia informacional, compulsão informacional, no modelo biotecnológico, seja mega e/ou nano, mercadológico, galopante, trabalhador-multifuncional, no modelo “pós-humano”, que precisa cada vez mais devorar os homens (proletários), e os recursos naturais, os ecossistemas e todo o conjunto da biosfera e destruir mortalmente os ciclos biogeoquímicos e climatológicos do planeta. Mas, incrível, nem isso eles estão conseguindo, realmente. Pois, os dados mostram que nosso povo não é tolo, que os/as calouro/as não se inscreveram e/ou os que entraram, logo perceberão onde caíram.
Pensemos sobre isso, o que está em jogo é mais do que nossos empregos, nossas vagas, novas vagas, novas possibilidades para a juventude, nossa universidade, muito mais do que a aparente superfície nos mostra agora, mais nitidamente aqui no Oeste do Pará, na UFOPA. Óbvio que temos e devemos defender nosso direito ao trabalho, emprego, remuneração justa, concursos novos, mais vagas, etc. Mas só conseguiremos organizados, lutando juntos. Devemos sim, nos organizar ainda mais, lutar ainda mais, juntos com outros movimentos e povos, entidades, companheiros/as, e/ou então poderemos sucumbir junto com essa avalanche desmoralizante que a burguesia, através de seus articulistas, capachos, traidores... Nos impuseram, desde Brasília. Ainda mais virá, e de forma mais destrutiva sobre nossas vidas, nossas esperanças. Mas de fato, o que de forma mais imediata nos cabe lutar, é defender: uma UNIVERSIDADE DE VERDADE, que atenda concretamente à Amazônia, seus povos, e interesses, que fatalmente estão ligados às nossas vidas, de outros e outras, nossos sonhos.
Um último registro, não somos contra a interdisciplinaridade, sim essa pseudo-interdisciplinaridade que aí está, particularmente encravada no CFI, que se arroga ser o lócus, mater, inicial e fundamental para se introduzir, exercitar, tal mal fadado modelo Frankenstein.

Quer saber, de verdade? A juventude tem que agarrar em suas mãos e sacudir essa História! Pois, como bem lembra o poeta Maiakovski: “O tempo é roído por vermes cotidianos. As vestes poeirentas de nossos dias cabem a ti, JUVENTUDE, SACUDÍ-LAS.”


[1] Engenheiro Agrônomo, Cientista Social, Eco-economista. Especialista em Desenvolvimento de Áreas Amazônicas, mestre em Planejamento do Desenvolvimento e doutor em Ciências - Desenvolvimento Socioambiental (UFRA/UFPA/NAEA). Educador, pesquisador e lutador social – Pertence ao quadro de professores do Instituto de Ciências da Sociedade – ICS/UFOPA – Santarém – Pará/Amazônia/Brasil.
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