Londres: ''Não estamos a saquear, o que fazemos é expressar a existência de um problema''

A imprensa e os políticos tentam esconder que os distúrbios respondem a um conflito social e com componentes de classe.

O partido de futebol de Inglaterra contra a Holanda, que seria jogado hoje (10 de agosto), foi cancelado "por falta de efetivos policiais". O primeiro-ministro David Cameron assegurou que 16 mil polícias patrulharão as ruas esta noite ante a previsão de novos distúrbios.

Vários meios da imprensa convencional e as televisões estão a difundir ampla informação sobre o ocorrido, dando voz a vizinhos indignados pelos incidentes, proprietários de comércios e opiniões várias. Toda a versão difundida coincide com a postura do primeiro-ministro: "Aqui não há um caso de brutalidade policial, mas um caso de criminalidade juvenil pura e dura. Por isso cairá sobre os criminosos todo o peso da lei".

A imprensa fala de "gangues urbanas" quando a maioria dos jovens que protestam são de raça negra. Inclusive dirigentes políticos de Bristol declararam esta manhã que "os responsáveis pela violência são grupos anarquistas oportunistas. Não é a primeira vez que trazem a violência à nossa cidade aproveitando um conflito circunstancial".

Qualquer desculpa é válida para desviar a atenção do que foi um assassinato policial racista, unido a uma desesperada tentativa por silenciar os protestos por meio do chicote, o que provocou ainda mais raiva.

Só vozes isoladas situam o conflito em termos globais: "Criamos uma sociedade onde os jogadores de futebol e os modelos recebem salários astronómicos, alardeiam da sua riqueza permanentemente e se comportam ao seu bel prazer, e são tratados como deuses nos meios de comunicação. Isto leva os nossos jovens a aspirarem à fama e à riqueza. No entanto, em vez disso recebem desemprego, pobreza e um futuro incerto. E agora nos surpreendemos quando se rebelam?" (Rob, London, comentário em BBC).

E pinga a pinga também podemos extrair outro elemento importante. Conquanto a imprensa entrevista fundamentalmente a proprietários de pequenos comércios ou de carros particulares, a maioria dos locais atacados pertencem a grandes empresas. A fábrica de Sony (uma nave de 70 metros de longo) foi queimada por completo em uma localidade ao norte de Londres, sucursais bancárias devastadas, sedes de apostas atacadas, Debenhams (uma espécie do Corte Inglês britânico) foi saqueado por uma multidão no município londrino de Croyden, 25 sedes de Orange e T-Mobile foram assaltadas em várias cidades bem como 20 de Vodafone e outras tantas de Carphone Warehouse, um hotel da corrente hoteleira Premier Inn (a maior de todo o Reino Unido) ardeu a meia-noite, vários locais da empresa Greggs (a maior empresa especializada em padaria do Reino Unido) foram atacados e queimados. São só alguns exemplos, dado que em geral os distúrbios estão a afetar zonas comerciais.

No meio de uma saturação de informação criminalizadora, um jovem negro encarapuzado foi entrevistado ontem à noite uns poucos segundos para o telejornal de Channel 4. À pergunta de por que a gente "saqueia" e atua "de forma criminosa", o jovem afirmou que "estamos a protestar porque a polícia não gosta da gente negra nem asiática. À polícia não gosta da gente de outras raças. Nós não estamos a saquear, o que fazemos é expressar a existência de um problema".

A imprensa e os políticos tentam a qualquer custo reforçar a sua visão de que tudo se resume a um problema de gangues juvenis, evitando assinalar como uma das causas à crise económica ou a situação social e econômica que vive a juventude londrina.

Para isso estão a pôr o foco em alguns atos indiscriminados sacados de contexto, no entanto abaixo de toda essa versão subjaz um conflito de classe.

Fonte e Tradução: Diário Liberdade
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