Orgulho nenhum de ser hetero

Natalia Mendes

O Projeto de Lei do vereador Carlos Apolinário, do DEM, que cria o dia Dia do Orgulho Hetero foi aprovado na câmara, que  quer "conscientizar e estimular a população a resguardar a moral e os bons costumes". Quero dizer tanta coisa sobre isso, que vou tentar me controlar e editar o que penso.


Essa frase me incomoda e muito. Quer dizer que ser gay é imoral e um “mal” costume?! E o vereador ainda disse, como muitos dizem por aí, que não é homofóbico, que até tem amigos gays. Ter amigos gays não e suficiente para não ser homofóbico, não bater em casais gay que andam na avenida paulista também não é suficiente pra você não ser homofóbico.


“Meu cabelereiro é gay. Tem até um camarada que ele chama de marido. É um cara normal: eu beijo ele, ele me beija. Não tenho nenhum problema. Na minha campanha, meu maquiador era um gay. E já tive dois funcionários gays que eram chefes do telemarketing”, gaba-se.
(Matéria da Carta Capital, grifo meu)


Se ele dissesse: “Eu não sou racista, até tenho uma empregada doméstica que é negra. É normal, converso com ela, peço por favor... Ela tem até umas pessoas na casa dela que chama de família”, significaria que ele não é racista?!



Não basta inverter a situação, não é tão simples assim, não funciona em toda e qualquer situação. “Se existe orgulho gay, por que não pode haver orgulho hetero?” é uma das coisas mais absurdas que se pode dizer. Caso você ache que nessa declaração não tem nada de mal, nada de homofobia, se você pensa que isso é normal e não tem nada demais, sinto dizer que precisa se informar mais e prestar mais atenção as coisas a sua volta.


Segundo a matéria da Carta Capital, “Apolinário disse que o projeto foi apenas uma forma de se manifestar contra "excessos e privilégios" destinados à comunidade gay.”


Infelizmente, muitas pessoas dizem isso, que gays, mulheres, negros só querem direitos e não deveres. Preste atenção em um exemplo que o Apolinário deu sobre o “excesso” de privilégios dos gays:

Outro exemplo do excesso de privilégios, lembra Apolinário, é que durante as festas sindicais de 1º de Maio não há distribuição gratuita de camisinha; já na Parada Gay, elas são jogadas às centenas graças à ajuda do contribuinte .


Acho que ele o conceito dele de privilégio é meio distorcido. Vamos ver o que diz o dicionário:

privilégio
 
pri.vi.lé.gio

sm (lat privilegiu) 1 Direito, vantagem ou imunidades especiais gozadas por uma ou mais pessoas, além dos direitos comuns dos outros. 2 Licença ou permissão dada a certas pessoas ou coisas com exclusividade. 3 Direito, graça peculiar, prerrogativa. 4 Diploma que contém a concessão de um privilégio; patente. 5 Dom natural do corpo ou do espírito. 6 Dir Posição de superioridade, sancionada ou não por lei ou costumes, decorrente da distribuição desigual do poder político ou econômico.
 



camisinhas: um "privilégio" dos gays
Os homossexuais tem uma posição de superioridade por que em um dia ganharam camisinhas? Eu sou mais privilegiada que imagina, então. Também já ganhei camisinha de graça e olha que nem foi na Parada Gay.

É privilégio apanhar simplesmente por ser homossexual? É privilégio não conseguir um emprego simplesmente por ser homossexual? É privilégio sua sexualidade ser piada (quem nunca falou, mesmo que “de brincadeira”: “e aí seu viadinho”, “nossa, que gay isso”, “meio gay falar/fazer isso né”). Com certeza não. O nome disso é preconceito.

O vereador faz mais afirmações assustadoras:

“O que faz um gay ser discriminado? Você põe um camarada gay para trabalhar no gabinete do vereador. Chega lá, ele faz uma voz que não é a dele, anda de um jeito que não é o jeito dele andar…É que nem um cara que corta o cabelo igual ao do Ronaldinho: ele passa e você olha. Ou uma mulher que sai com o busto de fora, ou bota minissaia. A pessoa vai olhar e fazer comentário. Mas se o gay tem um procedimento normal, fala e anda do jeito dele, ninguém vai estranhar”

Quer dizer que aquela voz não é dele?? É de quem então? Se eu soubesse antes que é possível falar como uma voz que não é a sua não teria crise em ouvir minha voz gravada. Será que posso ouvir com um ouvido que não é o meu também? É que às vezes quero ouvir outras coisas, sabe...

Apesar da irritação, Apolinário garante que, diferentemente do colega de política, o deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ), não tem problemas em conviver com a comunidade gay. Se os filhos seguissem esse caminho, garante, ele pediria apenas que eles mantivessem a discrição.

Realmente, Apolinário e Bolsonaro não tem NADA A VER! (isso foi uma ironia, caso alguém fique na dúvida).

E para quem acha que o movimento LGBT não tem nada pelo que lutar, que tem "excesso de privilégios", vale lembrar que o Brasil é o país com maior número de crimes contra LGBTs.
"Não sejamos ridículos; quem escolheria a homossexualidade se pudesse ser como a maioria dominante? Se a vida já é dura para os heterossexuais, imagine para os outros", já diria Drauzio Varella. "Afinal, caro leitor, a menos que seus dias sejam atormentados por fantasias sexuais inconfessáveis, que diferença faz se a colega de escritório é apaixonada por uma mulher? Se o vizinho dorme com outro homem? Se, ao morrer, o apartamento dele será herdado por um sobrinho ou pelo companheiro com quem viveu trinta anos?"
Pra terminar, quero destacar parte do ótimo texto da Srta. Bia - que recomendo que leiam inteiro - sobre o assunto:

O Dia da Mulher existe, não para ganharmos parabéns ou flores, mas para ser um marco da luta das mulheres. O Dia do Orgulho LGBT existe para nos lembrar o quanto é difícil fugir dos padrões de sexualidade. O Dia da Consciência Negra existe para que negras e negros olhem para si, para as características de sua raça e não se sintam inferiores. E todos esses dias marcam lutas pela igualdade social numa sociedade machista, homofóbica e racista.

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