Os Héteros estão na pior?

Ontem foi aprovado na Câmara de São Paulo o projeto que cria o Dia do Orgulho Heterossexual. Como bem disse o Vitor Angelo, a primeira pergunta a se fazer é: os héteros estão na pior?

Isso muito me preocupa e pensei até em escrever para o nobre vereador evangélico Carlos Apolinario (DEM), autor do importantíssimo projeto, para ele me esclarecer o que está acontecendo. Porque se os héteros estão sendo assassinados por sua conduta sexual, se estão sofrendo humilhação nas escolas ou no trabalho pela orientação sexual, ou pior, se o beijo hétero está sendo vetado, temos sim, que sair em causa dessa população. Não podemos deixar marginalizar os héteros, como não podemos deixar que nenhuma minoria seja considerada cidadã de segunda categoria. Afinal, a discussão não é por supremacia e sim por igualdade. Continue lendo em Algumas observações sobre o Dia do Orgulho Heterossexual.

As pessoas costumam achar que a instituição de um dia no calendário oficial do país é apenas um dia. Mas para quem é marginalizado socialmente, não é. Marcar um dia no calendário significa criar visibilidade social. É por isso que temos diversas manifestações no Dia da Mulher, no Dia da Consciência Negra e no Dia do Orgulho LGBT. Porque mulheres, negros, negras, lésbicas, gays, transexuais e transgêneros são estigmatizados e trancafiados em seus guetos. Às mulheres reservamos os cuidados do lar e o milagre da maternidade. Às negras e negros menos educação e o elevador de serviço. Às lésbicas, gays, transexuais e transgêneros a nossa intolerância. E ao oprimido homem branco heterossexual reservamos o poder, a presidência das maiores empresas do país, educação de qualidade e maioria na Câmara e no Senado.

Troque a frase da placa por: "Homo keep moving, this is a heterosexual neighborhood!". Imagem de Mathew High, no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

O Dia do Homem foi criado pensando em incentivar campanhas de saúde masculinas. Acredito que melhor que criar um dia, seria, junto com o Ministério da Saúde, determinar que um mês x seja o mês da saúde masculina, com campanhas maçiças. Como acontece com o Outubro Rosa, durante um mês são feitas campanhas maçiças sobre câncer de mama. Criar um dia para o homem não faz sentido quando não há um movimento de libertação e reconhecimento social. O Dia da Mulher existe, não para ganharmos parabéns ou flores, mas para ser um marco da luta das mulheres. O Dia do Orgulho LGBT existe para nos lembrar o quanto é difícil fugir dos padrões de sexualidade. O Dia da Consciência Negra existe para que negras e negros olhem para si, para as características de sua raça e não se sintam inferiores. E todos esses dias marcam lutas pela igualdade social numa sociedade machista, homofóbica e racista.

Em matéria da Carta Capital, ficamos sabendo qual o objetivo do vereador Carlos Apolinário ao propor o Dia do Orgulho Heterossexual:

o vereador garante que, ao aprovar a lei, conseguirá instituir também um dia de reflexões sobre o que chama de “excesso de privilégios” acumulado pela comunidade gay na maior cidade do País. Ele explica: “hoje em dia, se você anda na rua e arruma briga, você sai e xinga. Você não quer saber se o sujeito é hétero ou gay. Você só quer xingar. Se você xingar um hétero, tudo bem. Mas se der o azar e xingar um gay, você vai ser chamado de homofóbico e vai causar uma baita confusão”. Continue lendo em “Não saiam do armário”.

O ilustríssimo vereador parece não perceber que ao xingarmos alguém na rua colocamos para fora todos os nossos preconceitos. Xingamos mulheres de piranhas e vagabundas, porque foi assim que o machismo nos ensinou. Xingamos negras e negros de pretas fedidas e pretos safados, porque assim o racismo nos educou. Gritamos às lésbicas que elas precisam ser estupradas para saber o que é bom. Dizemos aos gays que eles são nojentos e que não nos toquem. Dizemos a transexuais e transgêneros que eles são abominações porque assim a homofobia sempre repetiu. Agora, vá xingar um homem branco heterossexual na rua, como o xingamos? O xingamos de branquelo? Talvez, mas qual o peso de ser chamado de branquelo? Algum tataravô do branquelo apanhou com chicotadas em troncos apenas por ser branquelo? O xingamos de mulherzinha, bicha ou viado? Talvez, porque ele não é nenhuma dessas coisas e é sempre muito humilhante ser chamado de mulher ou gay.

No fim, chegamos a conclusão que é para isso que temos um dia do orgulho heterossexual, para celebrar a heterossexualidade, tão combalida e tão discriminada pelas ruas, onde pessoas heterossexuais não podem nem andar de mãos dadas, não podem ver novelas porque há torcida para que casais héteros morram. E para nos lembrar que não há xingamentos contra o homem branco heterossexual. Ele só quer apanhar na rua sem motivo e ser assassinado.

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