Papa ataca visão utilitarista do ensino

No segundo dia de sua visita à Espanha, o papa Bento XVI criticou, em encontro com cerca de 1,5 mil professores universitários, a tendência "utilitarista" da educação nas últimas décadas, que se limita a satisfazer a "demanda do mercado".

A notícia é do jornal
O Estado de S. Paulo, 20-08-2011.

O encontro com professores de ensino superior foi feito a pedido do papa, na Espanha por ocasião da Jornada Mundial da Juventude - reunião de jovens criada no pontificado de
João Paulo II, que termina amanhã.

"Às vezes se pensa que hoje a missão de um professor universitário seja exclusivamente a de formar profissionais competentes e eficazes, que satisfaçam à demanda trabalhista", criticou. "Também se diz que se deve privilegiar a mera capacitação técnica. Certamente, difunde-se na atualidade essa visão utilitarista da educação, incluindo a universitária, mas especialmente nos âmbitos extrauniversitários", continuou
Bento XVI, aplaudido de pé na Basílica de São Lourenço do Escorial, próximo a Madri.

Na opinião do papa, a visão meramente utilitarista da educação é antiética e leva ao totalitarismo. "Quando apenas a utilidade e o pragmatismo são eleitos como critério principal, as perdas podem ser dramáticas: desde os abusos de uma ciência sem limites até o totalitarismo político, que se aviva facilmente quando se elimina toda referência superior ao mero cálculo de poder." Para ele, a universidade deveria voltar à sua autêntica vocação, a da "busca da verdade humana".


Antes de ser papa,
Joseph Ratzinger foi professor universitário por 25 anos. Ele recordou a grandeza da vida intelectual interdisciplinar na Universidade de Bonn, que frequentou após a 2.ª Guerra. "Quando ainda se sentiam as feridas da guerra, consolavam-nos uma atividade apaixonante, o trato com colegas de diversas disciplinas e o desejo de responder aos questionamentos fundamentais dos alunos."

"A universidade encarna, pois, um ideal que não deve ser desvirtuado por ideologias fechadas ao diálogo racional nem por um servilismo a uma simples lógica utilitarista de mercado, que vê o homem como mero consumidor. Eis aí sua importante e vital missão", disse aos docentes.


Procissão


De volta a Madri, o papa encerrou o dia com uma procissão. Durante o ato, ele ouviu orações de diferentes setores da sociedade, que incluíram vítimas de abuso sexual e desempregados.


Mais cedo,
Bento XVI se reuniu com o primeiro-ministro José Luis Rodríguez Zapatero.

A viagem tem sido marcada por protestos. Na noite de quarta-feira houve confronto da polícia com manifestantes que criticaram os custos da visita papal. O Vaticano lamentou o ocorrido, que classificou como "marginal". 

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