A redistribuição da economia internacional e os novos desafios ambientais

José Eustáquio Diniz Alves
Os países ricos e desenvolvidos estão passando por uma enorme crise econômica, desde 2007. Após a desaceleração de 2008 e a grande recessão de 2009, esperava-se que houvesse recuperação nos anos seguintes. Mas o curto fôlego só aconteceu em 2010. Tudo indica que as economias americana e da área do Euro podem cair na recessão novamente, caracterizando a situação de “duplo mergulho”. Na melhor das hipóteses os países desenvolvidos vão crescer pouco enquanto não conseguirem resolver seus problemas de altos déficits, altas dívidas e alto desemprego. Entrementes, a maioria dos países em desenvolvimento, a despeito de serem mais pobres em termos de renda per capita, estão apresentando um melhor desempenho econômico (inclusive os países da África ao sul do Saara).
 
A redistribuição da economia internacional e os novos desafios ambientais, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

No início da década de 1990, a região desenvolvida (composta por 34 países e com 1,25 bilhão de habitantes em 2011) representava cerca de 2/3 da economia mundial e a região em desenvolvimento (composta por 150 países e com 5,75 bilhões de habitantes em 2011) representava 1/3 da economia do Planeta, segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), medido em poder de paridade de compra (ppp). Até o ano 2000 as percentagens mudaram pouco e passaram para 63% e 37%, respectivamente. Porém, após a virada do milênio os países antes considerados do Terceiro Mundo passaram a crescer em um ritmo muito mais veloz, sendo que em 2010 os países em desenvolvimento pularam para 48% da economia internacional e os países desenvolvidos caíram para 52%. As projeções do FMI mostram que haverá empate em 2012 e que a partir de 2013 os países em desenvolvimento passarão a representar mais da metade da economia global. As projeções para 2016 são de 54% para os países em desenvolvimento e de 46% para os países desenvolvidos. As recentes crises na Europa e nos Estados Unidos apenas confirmam e aceleram a mudança na redistribuição da economia internacional.

O fato é que os países em desenvolvimento, liderados pela China e pela Índia (que juntos possuem mais de 2,5 bilhões de habitantes) devem liderar o crescimento da economia mundial nestas primeiras décadas do século XXI. Somente os 7 grandes países emergentes (China, Índia, Rússia, Brasil, México, Turquia e Indonésia) já representavam 30% da economia mundial em 2010 e devem chegar a 35% no ano de 2016, superando o grupo dos 7 países mais ricos, o G-7 (EUA, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Canadá).

A Conferência internacional sobre População e Desenvolvimento (CIPD), realizada no Cairo, em 1994, estabeleceu que o desenvolvimento é um direito dos povos. Portanto, os chamados países “emergentes” estão colocando em prática os seus direitos de produzirem cada vez mais bens e serviços. Em termos per capita os países em desenvolvimento ainda estão muito distantes dos países “avançados” (usando a terminologia do FMI). Mas as diferenças de renda estão diminuindo.

O processo de convergência da renda de países pobres e ricos é uma grande novidade e uma boa notícia neste alvorecer do terceiro milênio. Porém, o impacto sobre o meio ambiente pode ser dramático, pois o efeito poluidor de um grupo é tão devastador quanto o do outro. Segundo a revista The Economist (04/08/2011), os países em desenvolvimento já são responsáveis pelo consumo mundial de cerca de 75% do aço, 70% do cobre, 55% do petróleo, 80% dos celulares, 55% dos automóveis, etc. Apenas um dado em destaque é suficiente para se ter uma idéia do efeito sobre o meio ambiente: os países em desenvolvimento já são responsáveis por cerca de 60% da emissões de carbono (CO2) do mundo.

Evidentemente, os países desenvolvidos foram os principais responsáveis pelos grandes danos ambientais durante o século XX e ainda continuam grandes poluidores. Porém, se os países em desenvolvimento continuarem a mimetizar o modelo das “economias avançadas”, o dano ambiental para o Planeta Terra será irremediável.

A solucão passa pelo decrescimento do consumo supérfluo, a diminuição dos desperdícios, a redução dos gastos militares e de guerra, a estabilização da população mundial e a transição de uma economia de alto carbono para um economia de baixo carbono, onde os recursos naturais sejam utilizados de uma maneira sustentável e as outras espécies vivas do Planeta sejam respeitadas.

José Eustáquio Diniz Alves, colunista do EcoDebate, Doutor em demografia e professor titular do mestrado em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves{at}yahoo.com.br

Fonte: EcoDebate, 10/08/2011

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