O Grupo Baader Meinhof

por FÁBIO VIANA RIBEIRO*

É quase consensual, entre os historiadores, a idéia de que a história das guerras é sempre a história dos vencedores. Acredito que poucos discordariam dessa afirmação, confirmada por meio de conflitos que poderiam ser lembrados quase que ao sabor do acaso: Argélia, Vietnã, Coréia, Paraguai, etc. Por outro lado, a um número talvez menor de observadores, restará a dúvida a respeito de até que ponto tais conflitos significaram tão somente uma oposição entre um lado “certo” e um lado “errado”, justo e injusto, bons e maus. Ou, para ficarmos apenas com o mencionado “axioma” que define a história destes e outros conflitos em termos da descrição que deles fizeram os vencedores, o que aconteceria se, em determinado conflito, os vencidos fossem “do mal”? O exemplo mais óbvio pode ser encontrado no contexto da Segunda Guerra Mundial: tendo os aliados vencido a guerra[1], a interpretação histórica em que se encontram baseados a quase totalidade de filmes e livros produzidos sobre o episódio retratariam, seguindo o raciocínio, um ponto de vista que não é o dos vencidos. E, aí o problema: no caso de os vencidos serem “do mal”, esta interpretação estaria, ainda assim, incorreta? Ou, excepcionalmente para tais situações, seria possível abrir uma exceção ao referido postulado?

Seja como for, nos últimos anos, filmes acima da média que tratam do tema “Segunda Guerra Mundial” passaram a estar disponíveis no mercado ou mesmo na internet. Para citar apenas os casos mais emblemáticos, mesmo dentro de diferentes níveis de qualidade de produção: “Venha e Veja” (Bielorússia, 1985. Direção de Elem Klimov), “Stalingrado” (Alemanha, 1993. Direção de Joseph Vismaier), “A Queda” (Alemanha, 2004. Direção de Oliver Hirschbiegel), “Dresden” (Alemanha, 2006. Direção de Roland Suso Richter). Já foi observado que poucos países no mundo fizeram um esforço tão grande de revisão de sua própria história quanto a Alemanha. Tal esforço, apesar de grande, pode não ter sido tão significativo em termos de se alcançar toda a complexidade do tema. E mesmo em sua história recente, o problema permanece. É o caso do filme cujo título dá nome a esse texto: “O Grupo Baader Meinhof”.

Não por acaso, um dos livros mais conhecidos sobre a Fração do Exército Vermelho (Rote Armee Fraktion – RAF, no original alemão), equivocadamente chamada pela imprensa alemã de Grupo Baader Meinhof, tem como sugestivo título “The Hitler’s children”[2]. Em princípio a idéia de associar a história da RAF ao nazismo poderia parecer estranha, mas, como observou Stefan Aust (autor do livro “Baader Meinhof – the inside story of the RAF”, em que se baseia o filme “O grupo Baader Meinhof), existiriam motivos para isso:

A Segunda Guerra Mundial tinha terminado apenas há 20 anos. Os que comandam a polícia, as escolas, o governo, eram as mesmas pessoas que estavam no comando durante o nazismo. O chanceler, Kurt Georg Kiesinger, era um ex-nazista. As pessoas só começaram a discutir isso nos anos 60. Nós éramos a primeira geração nascida desde a guerra, e estávamos fazendo perguntas aos nossos pais. Por causa do passado nazista, tudo de ruim era comparado ao Terceiro Reich. Se você ouvia falar de brutalidade policial, diziam que era igual à SS. No momento em que você vê seu próprio país como a continuação de um Estadofascista, você se dá a permissão de fazer quase qualquer coisa contra ele. Você vê as suas ações como a resistência que seus pais não tiveram.

Ainda que num ritmo frenético, o filme retrata tal aspecto em vários momentos. Aliás, não poderia ser de outra forma: a vertigem dos acontecimentos a que se refere e as duas horas e meia de duração quase não são suficientes para mostrar os traços básicos da história. Entre outras indicações que constam no filme, a observação dos pais de Gudrun Esslin, após a prisão da filha (“…uma geração que viu em primeira mão campos de concentração sendo construídos em nome do povo, o anti semitismo se propagar, e genocídio ser cometido, não pode permitir que novos inícios, reforma e renascimento sejam por nada”); tanto quanto a própria interpretação feita pela RAF de que o Estado alemão se constituía num Estado policial, a presença militar americana no país, o apoio do governo alemão à Guerra do Vietnã, etc.

Mesmo que a Alemanha dos anos 70 fosse um país já praticamente refeito do pós-guerra, vivendo sob regime democrático, com elevados índices de desenvolvimento industrial e bem estar, não seria absurdo pensar na possibilidade de existência, mesmo sob essas condições, de um Estado policial, tal como imaginavam os membros da RAF. Um contraponto a essa interpretação é feita pelo próprio Stefan Aust, ao observar os rumos que as idéias do grupo assumiram após a entrada de muitos de seus membros na clandestinidade (Stefan, que aparece como personagem do filme, havia sido amigo de juventude de alguns dos membros da primeira geração da RAF). Segundo este, na medida em que isso acontecia, as lideranças da RAF interpretavam a realidade de forma cada vez mais distorcida por… justamente estarem cada vez mais privados de contato com a realidade. De qualquer forma, muitas cenas sugerem os motivos da primeira perspectiva: a visita do então Xá Reza Pahlevi do Irã a Alemanha, as condições de vida dos membros do grupo na prisão de Stammheim, ações ilegais autorizadas pelo governo alemão no combate a RAF, etc[3].

Infelizmente “O Grupo Baader Meinhof” vem a ser o típico filme cuja compreensão depende de um conhecimento prévio mínimo a respeito dos acontecimentos que descreve. Inclusive pelo fato da narrativa alcançar, em determinados momentos, um ritmo excessivamente rápido. O que em parte reflete o caráter dramático dos acontecimentos do período; mas também a necessidade de fazer daquilo que é, na prática, um documentário, um filme capaz de atingir o grande público. Do ponto de vista de parte da crítica cinematográfica, tais objetivos foram até “bem demais” alcançados: teria havido certa glamorização dos acontecimentos, inclusive em favor da perspectiva do próprio grupo. A esse respeito, caso seja pensada a trilha sonora do filme (que inclui músicas mais que emblemáticas como “Mercedez Bens”, de Janis Joplin e “My generation”, do The Who), cenas fabulosamente bem produzidas, construção dos personagens, etc, talvez se chegue a essa conclusão. E novamente seria preciso considerar que a quase totalidade dos integrantes da RAF eram, de fato, muito jovens e sedutoramente capazes de ir além dos limites que a maior parte das pessoas estariam dispostas a ir:

– Nós vamos mudar a situação política.

– Como isso é possível?

– Que pergunta mais burguesa! Simplesmente mudaremos. Ou morreremos tentando.

Inversamente, o próprio caráter espetacular de muitas das ações da RAF (numa delas, em dez minutos, três assaltos simultâneos a bancos rendendo mais de 200.000 marcos…) poderia ser visto como uma espécie de materialização de muitas cenas de ação que o cinema americano já vinha produzindo desde alguns anos antes. Uma fórmula, portanto, já conhecida: juventude, ousadia e beleza sempre foram combinações muito sedutoras em nossa cultura.

De modo geral o filme é muito fiel aos acontecimentos descritos. Ou pelo menos, o que seria dizer o mesmo, boa parte das cenas de fato aconteceram e podem ser encontradas descritas em diversos livros e documentos (a segunda prisão de Andreas Baader, por exemplo, foi transmitida ao vivo pela televisão alemã…). Alguns aspectos importantes para compreensão do quadro são apenas rapidamente mencionados – como a inspiração da RAF nos Tupamaros uruguaios, o relativamente alto percentual de apoio da população alemã ao grupo, etc. Enquanto outros, menos significativos, mas ainda assim curiosos, só podem ser deduzidos indiretamente, como a forte presença feminina entre os quadros da RAF (aspecto bastante incomum entre grupos de extrema esquerda).

O final abrupto da narrativa pode levar o espectador a algumas dúvidas. A mais habitual, a respeito do suicídio ou assassinato dos prisioneiros da RAF em Stammheim. Mas também do sentido ou da falta de sentido da causa pela qual os membros do grupo lutaram. Ou ainda sobre a suposta existência de um Estado policial – ou de uma cada vez mais eficiente “sociedade de controle” que, entre as décadas de 70 e 90, tenha talvez eliminado os últimos grupos que realmente chegaram a ameaçar a essência de seu poder.



* FÁBIO VIANA RIBEIRO é professor adjunto da Universidade Estadual de Maringá (Departamento de Ciências Sociais) e Doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP).

[1] Do ponto de vista dos russos, tal conflito nem mesmo teria existido como o conhecemos; em seu lugar existiu a “Grande Guerra Patriótica”, travada contra os alemães e vencida pelos soviéticos.

[2] BECKER, Jillian. The Hitler’s children: the story of Baader-Meinhof Gang.

[3] Tanto quanto as informações – que não constam no filme – de que a polícia alemã teria oferecido grandes somas de dinheiro aos membros da RAF em troca do abandono da luta armada.

Fonte: http://espacoacademico.wordpress.com/2011/10/05/o-grupo-baader-meinhof/
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