Poema - Eu sou carvão

Israel Andrade

Sou coisa preta
sou pedra tirada do ventre da terra.
Sou feto parido do chão,
eu sou carvão.

A minha cor é a do piche,
eu sou azeviche;
pra me parir tem que ter pá, picareta e dinamite;
pra me parir tem que ter braço forte;
tem que ter sorte, acredite;
pois a morte é viva no útero da minha mãe
e antes de trabalhar tem que fazer oração,
tem que rezar, tem que pedir proteção,
pra me parir tem que ter calo na mão.
eu sou carvão.

Arrancam-me do solo nu
não ligo, sou pedra de exu, me vingo;
sou hulha, pirita, rejeito; sou chaga que não tem cura, doença no peito;
sou feio, de um jeito igual pichação;
sou ponto preto no pulmão
do mineiro, poeira, explosão.
Eu sou carvão
Comentários
0 Comentários

Imprimir ou salvar em pdf

Leia Também