Seis Lições sobre Outubro – A ocupação de Belo Monte

Por Otávio Rodrigues e Willys Lins

“Viver é lutar.
A vida é combate,
Que os fracos abate,
Que os fortes, os bravos
Só pode exaltar”.

Canção do Tamoio – Gonçalves Dias

Primeira Lição: a Ocupação – Rodovia Transamazônica, Km 50, Vitória do Xingu/PA foi o ponto marcado para o encontro. Era madrugada do dia 27 de outubro, quando o silêncio da floresta foi rompido pelo grito de guerra de lideranças indígenas de 18 etnias. Os Kaiapós, em maior número, lideravam o protesto. Assim, começou o bloqueio da Rodovia e a ocupação de obras do Consórcio Construtor de Belo Monte (CCBM), conglomerado de empresas responsáveis pela construção da usina hidrelétrica de Belo Monte.

Nos dois primeiros dias do Seminário Mundial em Altamira (900 km de Belém) para discutir os impactos da usina, era corrente entre os participantes do encontro, a necessidade de realizar ações mais ousadas contra a iniciativa do governo brasileiro. Representativo, o seminário contou com cerca de 700 participantes, entre indígenas, pescadores, trabalhadores urbanos, estudantes e um expressivo número de militantes de movimentos sociais oriundos da capital paraense, Belém.

Segunda Lição: a Solidariedade – Presentes ao evento, dois ex-candidatos ao governo do Pará no último pleito, o historiador Fernando Carneiro (PSOL) e o dirigente sindical Cleber Rabelo (PSTU), além de dos parlamentares, Edmilson Rodrigues e Marinor Brito, ambos do PSOL.

Terceira Lição: recuo da NESA e espionagem – Na guarita da empresa, apenas três seguranças. Um deles, devidamente orientado para não reagir, portava uma câmera fotográfica e aguardava passivamente a chegada dos manifestantes ao local. Este fato, somado a outros, não passou despercebido pelos organizadores do seminário de que todo o evento, do início ao fim, foi monitorado por arapongas a serviço do governo brasileiro e da Norte Energia S. A. (NESA).

O que era suspeita transformou-se em certeza, uma vez que durante a ação de ocupação, não se demonstrou nenhuma resistência por parte da segurança privada da NESA, que temerosa com possíveis conflitos, resolveu liberar do trabalho os mais de mil e trezentos funcionários.


Quarta Lição: resistência – Os manifestantes sabiam exatamente o que queriam: atacar a fera de R$ 30 bilhões, acumular forças, chamar a atenção internacional, criar um fato político e do palco da discórdia, enviar um recado sem intermediários ao governo. E assim foi feito durante as 12 horas da ocupação do canteiro e da rodovia Transamazônica.

O movimento de ocupação sabia também que o conluio político-jurídico logo daria as cartas. Assim, no início da noite do dia 27, a ordem de reintegração de posse chegou e não causou nenhuma surpresa. Acompanhados de uma equipe do batalhão de choque da PM, oficiais de justiça vistoriaram as instalações (que não foram depredadas). Toda essa movimentação foi documentada e boa parte das imagens correu o mundo.

Quinta Lição: visibilidade – A luta contra a construção de Belo Monte entra em uma fase decisiva. Está claro que o governo precisa construir Belo Monte para atender aos seus compromissos políticos, mas principalmente para derrotar mais de duas décadas de resistência dos povos da floresta. O governo opera no sentido de tentar quebrar esta resistência e o símbolo que ela representa. E segue ignorando o clamor mundial.

Belo Monte, se não for impedida, terá 80% do seu custo de R$ 30 bilhões financiado com recursos do Estado brasileiro para beneficiar grandes corporações econômicas. A revelia do sofrimento que ela poderá causar, os impactos sociais e ambientais serão irreversíveis.

Os novos passos do movimento ainda não estão decididos, mas com certeza estará na pauta incentivar o aumento da solidariedade nacional e internacional e principalmente incrementar a luta local. Manifestações contrárias à usina têm ganhado força em escala mundial e já chegaram a mobilizar a Organização dos Estados Americanos (OEA).

Sexta Lição: próximos Passos – Este final de outubro ajudou a escrever uma página importante desta luta, e a depender, pode reorientar o movimento para novas ações diretas, frente a frente com a fera do PAC. Não é à toa, que o consórcio começa a operar um plano para abrigar nos alojamentos da obra, homens da Força Nacional.

Certamente, se os participantes do Seminário Mundial tivessem ficado apenas entre as linhas do debate, não teriam rompido o forte cerco midiático imposto ao movimento. Ademais, o ânimo de todos saiu fortalecido com o fato de terem dado um passo concreto para acumular forças na luta contra Belo Monte.

Daqui em diante, tudo leva a crer que este trecho da Transamazônica será testemunha de novos acontecimentos. Outubro se foi com a nítida e inequívoca certeza de que o grito de guerra dos povos da floresta não ecoa mais tão solitariamente na volta grande do Xingu. Ele corre mundo afora, conclamando os lutadores do povo para marcharem em defesa da Amazônia, dos seus rios, povos e florestas, são as lições de outubro.

Otávio Rodrigues é membro do Comitê Metropolitano Xingu Vivo e do Ponto de Pauta
Willys Lins é jornalista e colabora com o Ponto de Pauta

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