Um filme para sociólogos


Fábio Viana Ribeiro*

Assim como nem todos os veterinários não são obrigados a gostar de cachorros e gatos, nem todos os sociólogos podem se sentir atraídos pela idéia de estudar a sociedade capitalista em seus aspectos conjunturais e estruturais. A observação, que não é minha, mas sim de um antigo colega de graduação, e autor de um blog que hoje não existe mais[1], remete ao fato, óbvio, de que qualquer profissão permite uma variação bem maior de interesses que a aquela prevista pelo senso comum. A frase, um tanto quanto “escatológica”, de nosso antigo e talentoso professor, “que já estava cansado de estudar sociologia careta, e que seu interesse era agora estudar coisas improváveis, como ‘mulher com pinto’”, resume bem a idéia e dispensa maiores explicações.

Do ponto de vista de sociólogos que não se interessam muito por “cachorros e gatos”, o mundo ao seu redor, inclusive seus próprios colegas de profissão, é antes de tudo um lugar muito divertido e interessante. Comparativamente, não é a todo momento que um sociólogo “tradicional” pode estudar o capitalismo: festinhas de aniversário, terminais de ônibus, aposentados que jogam baralho nas praças, golpistas profissionais, fã clubes, grupos religiosos estranhos, etc., em geral não costumam atrair muito a curiosidade de sociólogos sérios (a ausência de aspas é proposital). A não ser, claro, dentro de um contexto mais amplo, capaz de tornar tudo que em princípio poderia ser perturbador, desconcertante e surpreendente em coisas previsivelmente sérias. Para muitos outros sociólogos, todo o interesse começa aí.

Não são muitos os filmes capazes de chamar tão pouca atenção nas prateleiras das locadoras quanto “Adam”, título pouco sugestivo de um filme de 2009, dirigido por Max Mayer. Além do título, contribuem para sua “camuflagem” a capa e os (habitualmente infames) comentários da embalagem, sugerindo tratar-se de mais uma comédia romântica ou algo semelhante. Não é o caso.


Anda que nem mesmo algumas das raras sinopses que podem ser encontradas na internet sobre o filme mencionem o fato, o assunto central é uma relativamente rara síndrome, cujo personagem que dá título ao filme é portador. Considerada uma forma leve de autismo, a síndrome de Asperger se caracteriza, de forma geral, por um quase bloqueio das capacidades de interação social. Em termos médios, a grande maioria dos indivíduos, não portadores dessa síndrome, atribui continuamente significados às suas próprias ações; quase como, por analogia, o faz um morcego, para efeito de se movimentar no espaço. Não sendo localizado qualquer obstáculo, no caso dos morcegos, ou havendo percepção de que “aquilo pode ser feito”, no caso dos humanos, a ação é levada adiante. O detalhe mais importante a ser considerado nessa perspectiva é o fato de que tais significados são reflexivos (no caso dos humanos) e envolvem uma contínua avaliação a respeito do “objeto” a que se dirigem[2]. Seja numa conversa banal, no guichê de uma repartição pública, parado sozinho à espera do ônibus, etc., os significados que atribuímos às nossas ações (falando, agindo, dissimulando uma atitude, etc.) “inspiram-se”, necessariamente, nas expectativas que alimentamos em relação ao comportamento de outros indivíduos.

E eis aí o ponto que faz de “Adam” um filme muitíssimo interessante sob o ponto de vista de (alguns) sociólogos. Por não possuir pleno domínio sobre estes elementos básicos da interação social, um aspie[3] constitui-se num improvável e vivo exemplo de indivíduo que, mesmo tendo passado por um processo de socialização, não possui a capacidade, tipicamente social, de adaptar seu comportamento em função daquilo que percebe no outro. Ao contrário do autismo clássico, indivíduos portadores dessa síndrome são com frequência muito talentosos em algumas áreas do conhecimento, vivem uma vida normal, etc. Mas, ao mesmo tempo, encontram-se como que separados de todo o mundo social que os cerca.

Talvez o maior mérito do diretor de “Adam” tenha sido alcançar a dimensão de “incomunicabilidade” dentro da qual vive o personagem. Afinal, onde reside nossa capacidade de, num sentido profundo, compreender o outro? Não talvez apenas nas palavras, nem mesmo por meio da interação social; mas de uma outra capacidade, essencialmente humana e que se materializa por meio dos sentimentos. O que, afinal, nos eleva acima das condições de meros seres biológicos e sociais. Não talvez por acaso, as cenas mais belas do filme parecem sugerir o milagre desse encontro.

Especulações óbvias poderiam ser feitas, com maior ou menor grau de pertinência. De que a condição do homem moderno implica num individualismo e alheamento que são, em parte, características da própria síndrome de Asperger. Um sistema que produz seus próprios autistas. Ou ainda que, da mesma forma que a imensa maioria dos aspies são do sexo masculino, é também uma característica tipicamente masculina certa necessidade de isolamento – que em alguns casos chega a ser transformado em ideal de vida. Traço de comportamento muito raramente encontrado entre mulheres.

Mas novamente, não é o caso. Ao perder o pai, que era uma de suas únicas ligações com o exterior, o personagem encontra-se fechado dentro de dois mundos. O de sua incapacidade de interagir com outros indivíduos e, ao mesmo tempo, o de viver num mundo que pouco sabe e se interessa por sua própria existência (como todos os que vivem nos grandes centros sabem…). Sua única saída vem de sua vizinha; por outros motivos, quase tão distante do mundo exterior quanto ele próprio. A distância existente entre ambos, que seria um grande problema para a maioria das pessoas, termina se transformando na rara chance de deixarem o isolamento de suas vidas.


Ficha Técnica
Título original: Adam
Gênero: Drama / Romance
Direção: Max Mayer
Duração: 99 min.
Ano: 2009
País de origem: EUA



* FÁBIO VIANA RIBEIRO é professor adjunto da Universidade Estadual de Maringá (Departamento de Ciências Sociais) e Doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP).
[1] “Observador Sociológico”, de autoria do Prof. Carlos Augusto Magalhães.
[2] O que caracteriza, como se sabe, o conceito de ação social, de Max Weber.
[3] Nome pelo qual são conhecidos os portadores da síndrome de Asperger.

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