As mulheres como um fator decisivo na revolução árabe



Por PCO
Egito 


A violência praticada pelo exército contra manifestantes, principalmente mulheres, aumentou a presença feminina nos protestos e a compreensão de que a luta por igualdade de direitos está apenas começando


Desde sexta-feira, dia 16 de dezembro, tem se intensificado no Egito os protestos contra o governo constituído pela Junta Militar, desde a queda do ditador Hosni Mubarak, em fevereiro deste ano.

Assim como aumentaram as manifestações, as forças repressivas têm também ampliado seu poder de fogo, agindo com extrema brutalidade para tentar por fim aos protestos. As mulheres têm sido uma vítima particular nesse processo.

A violência cometida contra manifestantes mulheres nos últimos dias, divulgada em todo o mundo através de vídeos e imagens na internet e na televisão ao invés de intimidar intensificou o sentimento de indignação das mulheres, que mais do que nunca compreendem a revolução como uma luta que apenas está começando contra o regime patriarcal de opressão, desigualdade e discriminação.

No dia 19 as egípcias realizaram uma grande marcha que reuniu milhares de mulheres, muitas que até agora ainda não tinham aderido às mobilizações, mas decidiram ir às ruas protestar contra os abusos e violência cometidos pelo governo e as forças repressivas.

“Este é o exército que está nos protegendo?”

As imagens que atiçaram a indignação são realmente chocantes. Mulheres cercadas por homens que a ameaçam com cassetetes; sendo arrastadas pelos cabelos; golpeadas por barras de ferro. A que se tornou capa de jornais e foi levada nos protestos como exemplo da brutalidade repressora mostra uma mulher que foi arrastada pelos policiais, teve sua roupa rasgada e mesmo estando no chão, semi-nua e sem forças é ainda golpeada pelos soldados. Um deles à paisana, de capacete, mas sem uniforme.

Essa foi apenas parte da violência dos últimos dias no Egito. Soldados derrubaram barradas na Praça Tahir, palco central das manifestações, e atearam fogo no hospital de campanha que funcionava na praça para atender manifestantes.

Um muro de concreto foi levantado, além de barricadas para isolar o parlamento e o ministério do Interior da população rebelada.

Prédios onde equipes de televisão estavam filmando e enviando notícias para o mundo foram invadidos e jornalistas presos.

“Um jornalista que foi detido brevemente disse à Associated Press que foi espancado com paus e punhos ao ser conduzido para dentro do prédio do parlamento. Lá dentro, viu um grupo de jovens detidos e uma mulher. Cada um deles foi cercado por seis ou sete soldados que lhes batia com paus ou barras de aço ou dava choques elétricos”.

Nos cinco dias de confrontos intensos, entre o dia 16 e 20 de dezembro, pelo menos 14 pessoas foram mortas (muitas com disparos na cabeça ou no peito) e 500 ficam feridas. Dezenas de pessoas foram presas. O governo não reconhece ou assume as prisões e muito menos que as mortes tenham sido provocadas pela polícia e o exército.

Muitos manifestantes ironizavam, “este é o exército que está nos protegendo!”

“... somos fortes, somos iguais e não temos medo”

“Liberdade”, era a principal palavra de ordem das mulheres que saíram às ruas contra a repressão. “As mulheres têm sido parte desta revolução”, gritavam durante o protesto.

Uma jovem de 27 anos disse El País, que passou o último mês acampada em frente ao Parlamento, até que foi expulsa. Para ela, a mulher que estampou a capa de dezenas de jornais em todo o mundo semi-nua sendo espancada por soldados “é o símbolo da repressão que sofremos todos os dias”.

Segundo ela, a imagem que circulou o mundo é um exemplo do que “os militares fazem com os manifestantes e com as mulheres que decidimos protestar”. Ela diz que foi “insultada, disseram que iriam me estuprar e se eu quisesse salvar a minha vida era melhor ir para casa”. Uma outra ativista conclui, “estar aqui é um grande passo. Devemos aproveitar todas as oportunidades que temos para lembrar que somos fortes, que somos iguais e não temos medo”.

“O conselho militar quer calar todas as críticas. Eles querem se manter no poder...”, diziam. Uma jovem de 27 anos afirmou: “Nós não vamos ficar quietos. Nós não vamos deixar isso acontecer novamente e vamos continuar colocando para fora nossa indignação contra essa junta militar que está a matar neste país”.

Segundo organizações de direitos humanos 83% das mulheres egípcias e 98% das mulheres estrangeiras que vivem no Egito sofrem diariamente algum tipo de assédio sexual.

Mas ainda assim elas não se calam. A internet tem sido um importante instrumento de divulgação, denúncia e relato das mais diversas agressões cometidas pelas forças de repressão.

Uma blogueira e jornalista relatou pelo Twitter a tortura, o estupro, e as violações que sofreu durante as 12 horas em que esteve presa no Ministério do Interior. A jornalista Mona Eltahawy tem procurado chamar atenção especial para a participação das mulheres na revolução e para o fato de que a queda de Hosni Mubarak está dirtamente ligada com os abusos cometidos contra mulheres.

“Os militares estão tentando tirar a dignidade do povo egípcio. Estou aqui como parte da revolução, que não terminou em fevereiro”, disse uma ativista durante a manifestação.

Este é um fato inegável. As mulheres são um fator decisivo na revolução. O desenvolvimento da situação revolucionária no Egito e em todo o mundo árabe esteve e está diretamente ligado ao fato de que elas ao invés de responderem aos abusos e violência, como esperava o regime, com a vergonha e o silêncio da vida doméstica, ocuparam as ruas para demonstrar sua indignação e decisão de lutar pelo fim da violência, por igualdade e por direitos.

Minha fonte: http://www.pco.org.br
Comentários
0 Comentários

Imprimir ou salvar em pdf

Leia Também