Franz Kafka: a afirmação da liberdade

Por Antonio Ozaí da Silva*
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“Pode-se ainda dizer algo novo sobre Kafka?”, pergunta-se Michael Löwy. Ainda que a obra do escritor tcheco seja daquelas que produziram leituras interpretativas e exegéticas diversas, o autor de “Franz Kafka, sonhador insubmisso”  [1] aposta que sim. Mas é possível ser original e superar as leituras de cunho estritamente literário, biográfico, psicanalíticas, teológicas, judaizantes e sociopolíticas dos diversos comentadores e críticos literários que se debruçaram sobre a obra kafkiana? Löwy investe num olhar que procura captar o “fascinante poder de insubmissão” expresso na escrita de Franz Kafka (p. 07).
A leitura de Michael Löwy é marcada pela perspectiva antiautoritária do autor de O Processo. Essa é a chave da leitura que permite responder afirmativamente à questão colocada e, ao mesmo tempo, produz uma reflexão ímpar, que, situada no rol das interpretações sociopolítica, procura “articular os outros níveis, graças a um fio vermelho que permite ligar a revolta contra o pai, a religião da liberdade (de inspiração judaica ortodoxa) e o protesto (de inspiração libertária) contra o poder mortal dos aparelhos burocráticos: o antiautoritarismo” (p. 11).

A obra de Kafka, incorporada ao léxico de várias línguas através do termo kafkiano, expressa a crítica antiautoritária, vale frisar, a afirmação da liberdade, na medida em que seu significado é profundamente assimilado “pelos milhões de leitores modernos para os quais o nome de Kafka tornou-se sinônimo de inquietação, em face do sistema burocrático” opressor. “As cadeias da humanidade torturada são feitas de papel de escritório”, afirmou Kafka (p. 13-14). Para Löwy, essa imagem kafkiana “sugere, ao mesmo tempo o caráter opressivo do sistema burocrático, que subjuga os indivíduos com seus documentos oficiais, e o caráter precário das cadeias, que facilmente poderiam ser rompidas se os homens quisessem libertar-se delas” (p. 15).


Franz Kafka (1883-1924)

O olhar diferenciado de Michael Löwy lança luz sobre as potencialidades libertárias e insubmissas do autor de Praga. E, por outro lado, oferece ao leitor a possibilidade de realizar uma leitura política crítica. Mas não se trata de enquadrar ideologicamente a obra de Kafka e reduzi-la “a uma doutrina política, seja ela qual for”. Como esclarece Löwy: “Kafka não produz discursos, ele cria personagens e situações e exprime, em sua obra, sentimentos, atitudes, uma Stimmung. O mundo simbólico da literatura é irredutível ao mundo discursivo das ideologias; a obra literária não é um sistema conceitual abstrato, na trilha das doutrinas filosóficas e políticas, mas criação de um universo imaginário concreto, de personagens e coisas” (p. 19).

Eis a diferença fundamental entre literatura e textos de caráter político. Ainda que a obra literária tenha significado político, não se trata de política partidária ou adesão a uma ideologia específica. Neste caso, estaríamos diante de um panfleto. Isso não significa que o autor seja ideologicamente neutro, mas sim que o texto literário pertence a outro campo diverso da atividade humana, com características que lhes são próprias. Não obstante, isto não impede a leitura crítica da obra literária. Em relação a Franz Kafka, por exemplo, não impossibilita que se explore “as passagens, passarelas, os elos subterrâneos entre seu espírito antiautoritário, sua sensibilidade literária, suas simpatias socialistas, por um lado, e seus principais escritos, por outro” (id.).

O acesso à documentação sobre a vida e obra do autor, e o diálogo crítico e criterioso com os diversos intérpretes e comentadores, faz de Michael Löwy um leitor privilegiado da literatura kafkiana. Isto se evidencia no transcorrer do livro. O leitor não acostumado às querelas interpretativas pode até mesmo cansar-se diante das discussões e detalhes apresentados em certos trechos. Porém, o leitor interessado em compreender profundamente a obra kafkiana terá o seu esforço recompensado. O que parece bizantinismo em certos aspectos ganha importância na medida em que configura a riqueza da obra. Por outro lado, o diálogo de Löwy com as várias linhas interpretativas ilumina a sua argumentação e, conforme avançamos na leitura, delineia-se o perfil insubmisso de Franz Kafka.

Löwy analisa as inclinações socialistas de Kafka, um socialismo de verniz antiautoritário. Sua pesquisa se orienta nessa direção. Daí a referência ao anarquista russo Piotr Kropotkin. Ele se fundamenta em relatos contemporâneos e em determinados aspectos da obra kafkiana como América. Contudo, como nos alerta Löwy, não se trata de “demonstrar uma pretensa “influência” dos anarquistas de Praga – ou de Kropotkin – sobre seus escritos. Ao contrário, foi ele que, a partir de suas próprias experiências e de sua sensibilidade antiautoritária optou por freqüentar durante alguns anos, esses meios (e por ler alguns de seus textos). Com efeito, nada seria mais falso do que acreditar que ele tivesse desejado transcrever suas simpatias libertárias em sua obra literária” (p. 55).

É equívoco rotular a obra kafkiana de anarquista (ou outro ista qualquer). Mas é possível identificar o ethos libertário. Este “se exprime em diferentes situações que estão no centro dos seus principais textos literários, mas, antes de tudo, na maneira radicalmente crítica como é representado o semblante compulsivo e angustiante da não-liberdade: a autoridade”. O leitor que queira descobrir na obra kafkiana um livro que expresse diretamente a utopia libertária certamente se frustrará. Esta “não aparece como tal em lugar nenhum em seus romances e contos: ela existe somente em negativo, como crítica de um mundo totalmente desprovido de liberdade, submetido à lógica absurda e arbitrária de um “aparelho” todo-poderoso” (p. 56).

Löwy mostra que as experiências de vida do autor de Praga – a relação paterna, o emprego etc. – reforçam a perspectiva antiautoritária. Esta não aparece enquanto doutrina política, mas na forma “de um estado de espírito e de uma sensibilidade crítica – cuja principal arma é a ironia, o humor” (p. 57). Se a sua obra expressa um dos aspectos fundamentais do pensamento anarquista, nem por isso é passível de defini-la enquanto tal. “Kafka estava longe de ser um “anarquista”, mas o antiautoritarismo – de origem romântica e libertária – atravessa o conjunto de sua obra romântica e libertária, num movimento de universalização e de abstração crescente do poder da autoridade paterna e pessoal até a autoridade administrativa e anônima” (p. 59), acentua Löwy.

Um dos elementos diferenciadores da análise de Michael Löwy é sua capacidade de universalizar a experiência para além das interpretações psicologizantes. A crítica à ditadura paterna constitui um dos fundamentos íntimos da perspectiva rebelde e insubmissa de Kafka. Ele se coloca do lado dos trabalhadores empregados do pai; fica do lado dos oprimidos. Por outro lado, como demonstra Löwy, o escritor tcheco nutre admiração especial por aqueles que se rebelam e lutam pela liberdade, com destaque para as figuras femininas.

A leitura do livro de Michael Löwy nos permite compreender a obra de Kafka. Sua análise revela o quanto o poder impessoal também pode ser tirânico e como este significado está presente nos livros e contos kafkianos. Em América, Na Colônia Penal, O Castelo, O Processo, etc., Kafka disseca e desvenda o poder em todas as suas manifestações. Simultaneamente, Löwy observa o quanto a obra de Kafka também está sujeita às interpretações conformistas ou mesmo aquelas que culpabilizam as vítimas do despotismo burocrático. É o caso de alguns intérpretes da obra O Processo. Löwy assinala que esse tipo de exegese tem em comum “o fato de neutralizarem ou apagarem a formidável dimensão crítica do romance, cujo tema central, como bem compreendeu Hannah Arendt, “é o funcionamento de uma hipócrita máquina burocrática na qual o herói foi inocentemente capturado” (p. 110).

Após apresentar e analisar as várias interpretações e se deter sobre a conclusão de O Processo, Löwy considera que esta “é ao mesmo tempo “pessimista” e resolutamente anticonformista. Ela exprime a sensibilidade do pária-rebelde em Kafka, que manifesta nessas páginas ao mesmo tempo a compaixão pela vítima e uma crítica da submissão voluntária. Podemos lê-las como um apelo à resistência” (p. 126-127).

A obra de Kafka expressa uma theologia negativa, conforme notou Walter Benjamin. Michael Löwy resgata a correspondência entre Walter Benjamin e Gershom Scholem e concorda que este conceito “é efetivamente o único que pode dar conta de modo adequado do tipo muito particular de problemática religiosa presente nos romances de Kafka” (p. 131-132). “Em outros termos”, afirma Löwy, “os escritos de Kafka descrevem um mundo entregue ao absurdo, à injustiça autoritária e à mentira, um mundo sem liberdade em que a redenção messiânica só se manifesta negativamente, por sua ausência radical” (p. 132). Configura-se, portanto, uma utopia negativa que tem afinidades eletivas com ateologia negativa. Um dos textos que melhor condensam esta “espiritualidade libertária” é a parábola “Diante da lei”. O significado deste texto é analisado por Löwy no capítulo com o sugestivo título “A religião da liberdade e a parábola “Diante da lei” (págs. 129-156).

A análise da obra O Castelo é atualíssima. A leitura nos propicia o entendimento de como o despotismo burocrático conta com a servidão voluntária para se legitimar. Com efeito, vivemos num mundo em que a acomodação e adaptação à ordem constituem comportamentos elogiáveis e aconselhados. Mesmo os que em tese deveriam nutrir posturas críticas diante da máquina burocrática se submetem efusivamente e aceitam as diretrizes emanadas dos órgãos superiores sem esboçar qualquer resistência. O comum é aceitar a autoridade burocrática como natural.
Löwy contextualiza os romances analisados. O Castelo está relacionado à conjuntura da vaga insurrecional que sacudiu a Europa nos anos 1818-1922. Isto explicaria porque, em sua avaliação, nesta obra a ênfase recai sobre a temática da resistência ao poder. Mas se trata da resistência individual. Nesta perspectiva, Löwy chama a atenção para um personagem em geral pouco observado. Trata-se de Amália, “uma dessas raras personagens nos romances de Kafka que encarnam, de modo irredutível, a recusa a obedecer, a insubmissão, em suma, a dignidade humana – pagando por isso um preço muito alto” (p. 185). Aqui, mais uma vez, nota-se a admiração de Kafka pelas mulheres que se rebelam contra o poder instituído.

Após discutir as interpretações sobre o “realismo” de Kafka, Michael Löwy finaliza este ensaio enfatizando “o poder de “iluminação profana” da obra kafkiana. A capacidade do autor de Praga em lançar luz sobre um mundo prisioneiro de “cadeias de papel de escritório”, um mundo despoticamente dominado por formas de poder impessoais e tiranias profeticamente apresentadas em textos como O Processo, “é, sem dúvida, uma das causas do seu extraordinário impacto sobre a cultura do século XX” (p. 201). Portanto, não é casual que o nome do autor tcheco tenha se tornado um adjetivo vinculado aos absurdos do nosso tempo. Como enfatiza Löwy: “Não é por acaso que o termo “kafkiano” entrou para a linguagem corrente: ele designa um aspecto da realidade que as ciências sociais tendem a ignorar e para o qual não têm qualquer conceito pertinente: a opressão e o absurdo da reificação burocrática tal como são vividos pelas pessoas comuns” (p. 204-205). Não obstante, a obra de Kafka também expressa a possibilidade de resistir, de não se submeter. Para tanto, é preciso compreender os mecanismos que nos dominam e, como o autor, cultivar a insubmissão.

Para concluir, o livro de Michael Löwy também mostra o quanto determinados indivíduos influenciam as nossas vidas. No Post-Scriptum ele expõe em poucas linhas como chegou a esse tema e como suas pesquisas evoluíram durante anos até a publicação deste livro. Neste relato ele presta uma justa homenagem a Maurício Tragtenberg:

“Ouvi falar pela primeira vez de Kafka durante meus anos de ginásio no Brasil, numa conferência de Maurício Tragtenberg sobre “A burocracia em O Castelo de Kafka”.[2] Maurício era um jovem intelectual judeu-brasileiro, autodidata – mais tarde, faria uma carreira universitária – de sensibilidade marxista-libertária. Não me recordo dos detalhes da conferência, mas, em linhas gerais, ele sustentava que o romance de Kafka era uma das mais interessantes análises críticas da significação dos poderes burocráticos nas sociedades modernas. Meu livro deve muito a essa longínqua intervenção de meu amigo desaparecido, Maurício Tragtenberg” (p. 16).

Ainda bem que existem indivíduos e livros como esses. São palavras que permanecem e cativam as gerações. São exemplos de insubmissão. Os sonhadores utópicos e insubmissos resistem!


* Publicado na REA nº 74, julho de 2007, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/074/74res_ozai.htm
[1] Michael Löwy. Franz Kafka, sonhador insubmisso. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2005 (208 p.)
[2] Em 1962, na Revista ALFA. Nº 1. Departamento de Letras da F.F.C.L. de Marília (SP), Maurício Tragtenberg publicou o texto “Franz Kafka – O Romancista do “Absurdo”, também disponível na Revista Espaço Acadêmico, nº 07, dezembro de 2001.
*Professor do Departamento de Ciências Sociais na Universidade Estadual de Maringá (DCS/UEM), editor da Revista Espaço Acadêmico, Revista Urutágua e Acta Scientiarum. Human and Social Sciences e autor de Maurício Tragtenberg: Militância e Pedagogia Libertária (Ijuí: Editora Unijuí, 2008). 
Fonte: Blog do Ozaí
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