Maurício Tragtenberg: A Revolução Russa

Por Antonio Ozaí em Blog do Ozaí

11 de novembro de 2008, Universidade Estadual de Londrina. Realizou-se o evento “Maurício Tragtenberg: Educação, poder e burocracia”, com a participação de Beatriz Tragtenberg, dos professores José Henrique de Faria (UFPR), Pedro Roberto Ferreira, Nelson Tomazi (UEL) e Antonio Ozaí da Silva (UEM). Promovido pelo Departamento de Ciências Sociais e coordenado pela professora Maria Nilza da Silva (UEL), este encontro objetivou o debate sobre a importância e contribuição de Maurício Tragtenberg para as Ciências Humanas, em especial nos estudos sobre o poder, a burocracia e a educação. Nesta ocasião, realizou-se o lançamento dos livros “Reflexões sobre o socialismo”, “Burocracia e Ideologia”, “Sobre Educação, Política e Sindicalismo” e “A Revolução Russa”, todos reeditados pela Editora UNESP. Sobre este último, reproduzo as palavras do Prof. Ricardo Antunes (UNICAMP):


“O livro A Revolução Russa, de Maurício Tragtenberg, publicado pela primeira vez em 1988, poucos meses antes do desmoronamento da URSS, tem um sentido promonitório: dotado de alta força crítica, percorre os caminhos e descaminhos daquela sociedade, da gênese do czarismo, anterior à Revolução de 1917, passando pelos longos, difíceis e tortuosos períodos que configuraram a processualidade russa, até chegar às vésperas de seu definhamento. Escrito em linguagem límpida, mas sem perder a complexidade dos problemas, dada a enorme erudição da qual Maurício Tragtenberg era uma das nossas mais viva expressões.

Vasculhando os mecanismos que desfiguraram a sociedade soviética, como a ditadura do partido (inicialmente em nos do proletariado e, posteriormente contra ele), através do desmedido controle burocrático, do monopólio do poder político exercido pelo binômio Estado-partido, Tragtenberg mostra como tudo isso acabou por sujeitar os trabalhadores às funções de execução, desprovidos de autonomia, autocontrole e criação.

Não poderia ser outro o resultado estampado neste ensaio: crítico arguto das aberrações cometidas em nome do socialismo, das formas de dominação exercidas contra os trabalhadores, crítico áspero da burocratização, o autor demonstra como estas deformações acabaram por destruir a Revolução Russa, por ele entendida como “o acontecimento mais importante do século XX”, significado similar que a Revolução Francesa teve para o século das Luzes.

Hoje, virada a página do breve século XX, somos desafiados a aprofundar o balanço das causas da derrota da Revolução Russa. Fracassada cabalmente a experiência inicial do “socialismo num só país”, a experiência soviética (e do chamado “bloco socialista”) foi, pouco a pouco, se convertendo numa espécie de sociedade estatal hipertrofiada, regida pela lógica que impossibilitou o florescimento da associação livre dos indivíduos, de que falava Marx. E, desse modo, obstou a construção social autônoma dos sujeitos do trabalho, processo que acabou por levá-lo à derrota terminal em 1989.

Livro claro, contundente, simples na sua plasticidade, denso na sua analítica, é parte da obra emanecipadora e libertária de Tragtenberg, que soube admirar o que de melhor a Revolução Russa nos legou, nos seus momentos mais férteis, sem se despregar jamais da análise densa de muitas de suas mazelas”.*

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* Texto da orelha. In: TRAGTENBERG, Maurício. A Revolução Russa. 2ª edição revista. São Paulo: Editora UNESP, 2007 (Coleção Maurício Tragtenberg), 151p.
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