O Brado Retumbante (ou O Berro Reacionário): qualquer semelhança é mera concidência (com o pensamento conservador brasileiro)

Thiago Arruda

Resolvi me permitir assistir à nova minissérie da Rede Globo, “O Berro Reacionário”. Confesso que, já tendo verificado a semelhança entre o ator que desempenha o papel de protagonista e a promessa da política burguesa, o pintoso-radiante-playboy-pseudoempreendedor Aécio Neves, não esperava novas questões: nada além de um bom moço fictício que salvaria o mundo da “corrupção”, em nome do bom desempenho de sua versão original em 2014 ou 18. Mas a coisa, de fato, mostrou-se bem pior.
A minissérie trata a política de forma medíocre. Um homem (que subitamente cai de pára-quedas no Palácio do Planalto) e sua mulher, moralistas-republicanos, desencadeiam sistemático combate à “corrupção”, o grande mal do país! – como se sabe. Aliás, a primeira dama é uma genuína heroína. Investiga, arma planos: vence. O tom de “aventura”, de heroísmo e messianismo é ridículo. Não, é verdade, não é tudo tão ruim. Em geral, esteticamente, é tudo bem melhor do que nas novelas – o que normalmente ocorre às minisséries da Globo. Mas não é disso que se trata, vamos em frente.

Uma das grandes conquistas da nossa primeira dama é o desmantelamento do “esquema dos livros didáticos”. Quem não lembra o que houve durante o ano passado, na vida real, em torno desse assunto? Vejamos o quanto qualquer semelhança é mera coincidência com o pensamento conservador brasileiro. Ela, a esposa do Presidente, perspicazmente, descobre que o Ministério da Educação favorece a uma sindicalista que escreve livros didáticos das mais variadas matérias. O foco recai sobre os livros de História, mas também toca em questões relativas à Linguística. As “absurdas mentiras” que, de imediato, provocam a ira de Maria Fernanda Cândido (nossa primeira dama) são três: “Tiradentes, grande mártir agrário, é o precursor do MST”; “A devastação de terras [é estranha a expressão, mas é assim que se apresenta na série] no Brasil começa com a colonização portuguesa, capitalista e predatória”; e “Pelo menos 10% do território nacional pertence aos quilombolas, heróis e vítimas da escravidão”. Ao ler este último trecho, a primeira dama, que é professora de História, repete sob uma interrogação irônica e indignada: “Quilombolas?! Heróis?!”, ao que dá sequência com um: “Estão distribuindo esse absurdo!”. Para arrematar, nossa musa dispara o mesmo jargão contido no editorial do Estado de São Paulo à época das discussões reais: “É a pedagogia da ignorância!”. No dia (fictício) seguinte, a esposa do Presidente cobra-lhe uma postura diante desse material “ideológico e fanático”, que está sendo distribuído a estudantes do primeiro grau, “antes que seja tarde demais”. Um balãozinho preenchido por um exército vermelho salta de sua mente e faz tremer de um medo privilegiado a heróica representante da mediocridade burguesa (para não gerar dúvidas, o balãozinho não consta nas cenas; não de modo explícito).

Não é difícil perceber a estratégia retórica da Rede Globo. A primeira afirmação faz uma ligação evidentemente sem fundamento entre o que seria um herói nacional, Tiradentes, e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Busca-se, com isso, demonstrar que a esquerda distorce os fatos a seu favor; o quanto a esquerda é doutrinária, emburrecedora e feia. A primeira afirmação não é a primeira por acaso: ela legitima as demais, pela sua precariedade, uma vez que as afirmações seguintes são, sim, de fato, verdadeiras, apesar de tratadas como “falácias ideológicas”: pois é claro que não se pode separar a degradação ambiental no Brasil do violento processo de colonização que dá início à nossa ligação de modo dependente ao capitalismo global (sim, global). O que se revela, aqui, é que, para a Globo, o termo “capitalista” deve ser sempre entendido como “ideológico”, uma qualidade semidiabólica. E nisso reside o absurdo dos livros. A História, portanto, não pode dar nome aos bois. Sequer pode chamar pelo nome o modo de produção mundialmente dominante. Quanto ao termo “predatório”, é preciso ser tão “ideológico” assim para classificar a colonização a que fomos submetidos como “predatória”? Aliás, “colonização de exploração” é a expressão consagrada. Uma expressão como se vê, bastante próxima de uma classificação da colonização enquanto "predatória". Mas apenas a Globo pode utilizar adjetivos. Quando outros os utilizam, estão sendo “ideológicos”. Bem, é verdade: faz sentido que, para a Globo, o genocídio indígena e a sucção de nossas riquezas não seja predatória. Se a Globo, porta-voz de nossa elite econômico-política, fizesse outro juízo de valor acerca disso, não corroboraria com as relações "predatórias" que continuam a imperar em nosso país.

Quanto às populações quilombolas, o que se apresenta não é mais do que a tese da Tradição, Família e Propriedade de que consistem essas populações num macabro MST Negro, que tem como fim apropriar-se de todo o território nacional. É claro que não será através da Globo que seremos informados de que as comunidades quilombolas reivindicam o reconhecimento do território que já ocupam, ao qual estão ligadas econômica e culturalmente. Estima-se que haja, hoje, mais de 2 mil comunidades quilombolas no país. Os imperativos da acumulação de capital que orientam o agronegócio e a atuação das multinacionais no campo brasileiro determinam sua preocupação com essa gente. Logo, a Globo também se preocupa. Se suas terras forem devidamente reconhecidas e demarcadas, o agronegócio pode ter uma dificuldade maior à sua frente para expandir a área cultivada, ou seja, para expropriar pela violência e comprar (geralmente, expropriação violenta e compra são movimentos combinados) essas mesmas terras. Por isso, o "MST Negro" é exposto enquanto um agente externo, não-brasileiro, prestes a expropriar a terra dos cidadãos de bem. Em geral, trata-se precisamente do contrário. Os quilombolas, brasileiros, defendem suas terras contra o poder do capital nacional e internacional (numa relação em que o primeiro - o capital nacional - encontra-se subordinado ao segundo - o capital internacional).

Os livros são “mentirosos”, apresentam histórias “falsas”, e sob esses termos são definidos por aqueles que podem falar, na série, com o ar da verdade e da justiça. A primeira-dama, em um diálogo com uma espécie de tutora intelectual sua, liga a produção dos livros a uma ONG, que, em seus termos, como todas as outras organizações não-governamentais, só serve para arrancar dinheiro dos cofres públicos. Um bando de picaretas.

Em uma entrevista rápida, a tal sindicalista se defende das acusações. O diálogo desenvolve-se mais ou menos da seguinte forma:

Repórter: Como a senhora explica as acusações?

Sindicalista corrupta, feia, chata e boba: A verdade é que a burguesia não quer que seja contada a história de luta e de sangue do povo brasileiro (...)

Repórter: E você acha que essa história é condizente com seu apartamento de 5 milhões de reais?

Adiante, revela-se que os livros de Português (distribuídos às escolas a partir da “quadrilha” que tem como ponto de apoio o MEC) ensinam que “não existe Português certo nem errado”. Quem lembra da polêmica real sobre os livros didáticos sabe que um de seus pontos centrais era, exatamente, essa mesma questão, sem tirar nem pôr: o “certo” e o “errado” no Português, diante da adoção pelo MEC do livro “Por uma vida melhor”, de Heloísa Ramos. A Globo, dessa forma, volta a sustentar (como o fez durante o debate real em 2011) que uma postura democrática diante da diversidade da linguagem oral, sem que se despreze a regra gramatical, consiste em um elogio à ignorância. Não é a Globo que é elitista; o respeito é que é ignorante. Faz mais sentido assim.

Nem todos, felizmente, assistiam à tal série no dia de ontem, 20 de janeiro, por isso julgo importante apresentar os elementos nela presentes, como o fiz, contextualizar a análise, para que fique claro, então, seu pano de fundo, sua intencionalidade: a estigmatização dos militantes de esquerda e a suposta neutralidade técnico-republicana dos nossos heróis, que traveste o mais sórdido conservadorismo. Conservadorismo segundo o qual o trabalhador rural sem terra é vagabundo, movimentos sociais e ONG’s são sinônimos de banditismo, sindicalistas são aproveitadores, quilombolas e indígenas sequer existem – isso está explícito. Seus acompanhamentos, menos pronunciados, são: subserviência às grandes potências; a naturalização da desigualdade social; o pobre tem o seu lugar e ai dele se o questionar; que se exploda o meio ambiente; e a máxima: a burguesia é a portadora da dignidade universal. Ou seja, a burguesia coincide com a humanidade. O resto é isto: resto. Não seja ele, não nos misturemos a ele. No fundo, e nem tão no fundo assim, é essa a síntese. Nossa professora de História e primeira dama deveria ser capaz de reconhecer isso.

Deveria ser capaz, ainda, de nos ajudar a perceber que se estabelece uma perfeita circularidade, uma harmonia completa entre a visão de História defendida pela Globo, sua concepção sobre a História do presente e seus interesses. Que nenhum livro de História explique a brutal concentração da terra no Brasil e suas determinações, por exemplo. Se isso ocorrer, como sustentar que os sem-terras não passam de vagabundos? O Brado Retumbante faz ecoar a História dos Vencedores. Ao mesmo tempo, não deixa de ser assustador que a nossa História seja, mesmo que sob essa perspectiva, problematizada junto a respostas tão medíocres. O recurso à História, do qual se utiliza indiretamente (através da discussão sobre o conteúdo dos livros didáticos) o autor Euclydes Marinho, provoca, praticamente, uma erosão cognitiva, escancara um abismo. Separa o inseparável. Contudo, essa separação é, sob a concepção burguesa (ou seja, idealmente), a verdadeira unificação. Torna-se claro que, para a elite econômico-política brasileira, a exploração do povo brasileiro, assim como o caráter "predatório" da dominação externa, não só não existe como nunca existiu. Nisso reside a operação de unificação entre o passado e o presente, a unificação construída sob a cosmovisão burguesa. Por outro lado, a tal "corrupção", que encontra suas verdadeiras raízes na nossa formação histórica, tem seu desenvolvimento artificialmente interrompido e isolado (e nisso reside a separação, o abismo) quando a compreensão de nossa condição a partir da exploração e da dependência é apresentada como mero panfletismo. Por cima de um abismo, portanto, esticam-se os braços ideológicos da burguesia, elaborando uma unificação ideal, imaterial, ahistórica. Isso porque realizar uma unificação material da História seria, para a burguesia, um suicídio ideológico.

“A História falseadora e panfletária” sustentada pela sindicalista corrupta em seus livros, essa expressão costuma ser de fato o apelido burguês para uma versão devidamente contextualizada e sem cortes da História. Contudo, não é novidade que essa versão seja “a versão ideológica” para a burguesia. Estranho seria se não reagisse a esse modo de pensar historicamente, se assim não o tratasse. Não menos revoltante do que – dialeticamente – esperado. Mas a sindicalista não é apenas panfletária: é também corrupta, ladra, uma bandida. A esquerda não comete apenas o crime da lavagem cerebral (que a Globo não comete): intersecciona-o ao assalto aos cofres públicos. Retorne-se à normalidade, portanto: livros neutros (o que significa “do jeito que nós queremos"); legalidade administrativa. Tudo limpo.

A “corrupção”, tratada assim, aparece à Lacerda. O neoudenismo compõe o discurso conservador brasileiro e, no berro reacionário, está à flor da pele branca global. Além de não se evidenciar a conexão entre a “corrupção” e as elites e seu poder econômico, fator determinante para que se compreenda o que é central, são as ONGs e os movimentos sociais os verdadeiros corruptos. Aliás, na trama é retratado também (sem muitos detalhes) um desentendimento do Presidente com o Ministro da Agricultura, diante de um desvio de verbas destinadas a créditos agrícolas. Ora, diante de todo o enredo, quem não ligaria, mesmo inconscientemente, mais essa fraude aos movimentos sociais do campo? Mesmo quem não lembre da CPI das ONG's pode realizar essa associação. O método contém também sua delicadeza. Também sugere, nem sempre consiste em pôr de modo explícito. Como se sabe, a direita costuma tratar o que se chama de "corrupção" sob três formas: como problema individual, um verdadeiro fantasma epidêmico que assola a egoísta natureza humana, fazendo irromper o crime; como problema crônico do Estado e da gestão pública, ao qual se responde com a privatização dos serviços públicos e gratuitos e a extinção de direitos; como problema da esquerda, que tudo submete a seu projeto apocalíptico de justiça social. A direita, nisso, portanto, permanece coerente.

É preciso dizer que não sou petista, que considero que o PT não é uma organização capaz de levar adiante o interesse do povo brasileiro, dos trabalhadores, apesar de seu nome. Contudo, os ataques da Globo são dirigidos não ao PT enquanto tal, mas à esquerda, às organizações dos trabalhadores e ao nosso povo (aos sem-terra, aos quilombolas e aos trabalhadores de modo geral). Por isso, é preciso, sim, enfrentar o discurso, apontar o lado que ocupa, o lado da miséria, da exploração, para a maioria; da ostentação e do riso opulento para um pequeno grupo. É um discurso de classe.

Para quem viu Boni confessar que “popularizou” Collor através de glicerina no rosto (que simulava o suor de um homem trabalhador) e de dossiês ocos, é verdade, não há novidade. 1989 é logo ali. Para quem ficou sabendo das discussões do Insituto Millenium, com Mainardi, Reynaldo Azevedo, Jabor, Magnoli e cia. sobre liberdade de expressão e a necessidade de posicionamento claro da mídia burguesa, de fato, não há nada de novo. Mas nunca é demais deixar claro que a mídia está, sim, posicionada; nunca é demais demonstrá-lo, inclusive para compreender sua estratégia – e melhor combatê-la. É preciso ser bastante estúpido para acreditar que se trata de um acaso ou de um roteiro abandonado à própria sorte em meio à maior rede de televisão do país, assim como é preciso um esforço imenso para acreditar que a elite deste pais não interfere na política, não faz valer seus interesses, quando conta com instrumentos tão eficazes – como as empresas de comunicação – em suas mãos. Por isso, não achem feio, radical ou "ideológico": é preciso arrancar esse patrimônio das mãos desses saqueadores. Não nos esquivemos, nós, de dar nome aos bois – com todo respeito aos bois e com a necessária franqueza para com os saqueadores.

O Berro Reacionário, no grosso, é uma propaganda. Mas é também o chilique de quem se sente ofendido pela verdade histórica. É sua reação agressiva e mesquinha, um “não venha me dizer que exploro”. É a rebeldia impossível, a indignação dos inindignáveis, a revolta dos irrevoltáveis; a busca pela zona de conforto por parte dos verdadeiros revoltadores e indignadores (e, assim, jamais revoltados ou indignados). Mas não nos deixemos atrair, através da indignação, por um culpismo vulgar. A Globo e a sua indignação impossivel é determinada, não se trata de um mau-caratismo ou algo que o valha. A forma como se organiza a economia, a política, os meios de comunicação no Brasil forja o sujeito Globo como ele o é – da mesma forma, forja a Veja, a Folha e congêneres. Os interesses em que encontram sustentação - os interesses da classe de seus proprietários e as relações de classe que a partir de sua condição mantêm - fazem com que sejam o que são.

A questão, para além dessa baboseira: somos todos ideológicos. Ou seja, todos temos lado e o defendemos no debate de idéias e na disputa política. O reverso, a outra face da moeda, o correspondente imediato à essa qualidade, ideológico, é a inviabilidade da neutralidade. Sim, é impossível ser neutro. A diferença essencial é que a Globo é ideológica e representa visceralmente os interesses de um punhado; as organizações dos trabalhadores que enfrentam essa elite (0u seja, que não foram cooptadas e não estão com a Globo e os seus) são ideológicas e representam os interesses de todos contra essa mesquinharia. Não porque são bonzinhos, têm um coração puro, nada disso, mas a partir de sua própria condição e da compreensão dessa condição: a condição de roubados, explorados, por essa dúzia de pentelhos que compõem a elite econômico-política nacional, subordinada à burguesia internacional. Esqueçamos os heróis. Ao contrário: ponhamos fim ao poder do capital representado por esses mesmos heróis e estabeleçamos mecanismos de controle e gestão efetivos do conjunto dos trabalhadores sobre a produção e a distribuição das riquezas. Isso, sim, é combater a “corrupção”. É claro, para isso, é necessário que todos sejamos trabalhadores. Parece longe? Não há outro jeito. Dizia o profeta, quem quer moleza toma sopa de minhoca. Enquanto isso, enquanto as condições para tanto não estão dadas, cabe combater as formas, legais e ilegais, através das quais a burguesia se apropria dos recursos nacionais (substituindo o paradigma não-relacional de interpretação da “corrupção” como fator isolado por este modo de análise) e fortalecer as organizações populares em sua luta cotidiana contra esse poder.

Fonte: http://assessoriajuridicapopular.blogspot.com/
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