Politicidade, Teologia e o Capital


Autor de livros sobre a teoria e a ação política contemporâneas, o filósofo italiano Giorgio Agamben analisa em O reino e a glória as conexões entre o poder secularizado e o discurso teológico

Por Vitor Bartoletti Sartori *

O Reino e a Glória (Boitempo, 2011) vem na esteira do projeto Agamben no sentido de uma "genealogia do poder", dando continuidade aos seus estudos sobre aquilo que chama, seguindo o Direito romano, de Hommo Sacer. No que deve-se dizer: o que primeiro chama a atenção no livro aqui tratado é o trabalho de pesquisa realizado pelo autor, que vasculha com cuidado a teologia cristã para estabelecer, com Foucault (em quem um dos principais temas é o biopoder) e dialogando com importantes pensadores, como Schmitt (assim como preteritamente em Estado de Exceção), a ligação entre o poder como se apresenta na modernidade - pretensa-mente secularizada, "desencantada" e 'racionalizada" - e o discurso teológico. Com isso, parte de teólogos corno Tertuliano e chega à análise das "democracias" contemporâneas as quais trata, com Guy Debord, em meio à "sociedade do espetáculo". Agamben procura demonstrar a continuidade que permeia a tradição ocidental a qual, segundo o autor, é vista - tanto na teologia, como na política - nos moldes da administração de pessoas ao mesmo tempo em que não exclui (antes, supõe) o apego ao ritualismo e aos aspectos cerimoniais os quais compõem a faceta daquilo que chama de "glória". O autor pretende demonstrar no livro: essa última faz-se essencialmente presente no poder também hoje. Só isso já traz à obra grande interesse: sua hipótese é provocativa, instigante e controversa, indo contra hipóteses muito cor-rentes hoje, como aquelas de uma "sociedade pós-metafísica" em que o 'desencantamento" confirma-se sendo preciso resgatar o "projeto do iluminismo".
(...) A democracia contemporânea é uma democracia inteiramente fundada na glória, ou seja, na eficácia da aclamação, multiplicada e determinada pela mídia além do que se possa imaginar

No entanto, deve-se dizer que a própria relação existente entre a teologia e a política não fora primeiramente percebida pelo autor que, sob esse aspecto, dialoga com o jurista conservador Carl Schmitt, quem se dedicou a escrever uma Teologia Política de modo que, em Schmitt, a política seria oriunda da secularização de aspectos teológicos; Agamben, por outro lado, não se volta à política como vista pelo autor alemão - amplia a dimensão de sua análise e de sua crítica na medida em que trata do poder de modo mais amplo, tal qual Foucault. Com isso, vê também a dimensão da economia relacionada à teologia lembrando-se de que, desde a Antiguidade, a esfera da Oikos (termo de que deriva, segundo o autor, a noção de economia) seria uma esfera de governo e uma esfera, por assim dizer, "gerencial". Já em Aristóteles haveria três dimensões da Oikos: despóticas (entre senhores e escravos), paternas (pais e filhos) e gâmicas (marido-mulher) e "o que une essas 'relações econômicas' é o paradigma que poderíamos definir como 'gerenciar'” (AGAMBEN, 2011, p. 31). Ou seja, o autor, na esteira de Foucault, busca o âmbito do "poder", o qual seria articulado de modo dúplice: tanto na ênfase da administração quanto no aspecto cerimonial.

Esse último aspecto, tendo-se em conta as relações de poder que marcam a sociedade contemporânea, seria muito mais importante do que se concebe normalmente: usualmente atribui-se o aspecto ritualístico e cerimonial a "regimes totalitários" ou "autoritários" em que haveria, por vezes, uma espécie de "culto à personalidade"; no entanto, na visão de Agamben, a questão vista assim perderia o essencial. Para o filósofo italiano, a "aclamação" - e isso seria essencial à configuração do poder - seria característica da "glória" e ela: "Não desaparece nas democracias modernas, mas desloca-se simplesmente para outro âmbito, o da opinião pública. [...] A democracia contemporânea é uma democracia inteiramente fundada na glória, ou seja, na eficácia da aclamação, multiplicada e determinada pela mídia além do que se possa imaginar': (AGAMBEN, 2011, p. 278)

Com isso, os liberais que atacam as irracionalidades do fascismo, do nazismo e do stalinismo tomariam para si uma forma de "aclamação" muito mais descentrada e, com isso, deve-se dizer, total, totalizante e, para que se use do vocábulo de hoje, até mesmo "totalitária”. Assim, se a esfera pública capitalista se apresenta eivada pela mercantilização e pelo fetichismo, como mostrou Debord, mencionado por Agamben, a questão ganha contornos, nesse ponto, radicais. O liberalismo político contemporâneo seria cerimonial e ritualístico como outras formas de exercício de poder pregressas, sendo a forma pela qual se expressaria o "povo" em nossas "democracias", ao menos, para dizer o mínimo, problemática. O radicalismo da obra, desse modo, se expressa na medida em que a política, como um todo, em sua manifestação moderna, passa longe daquilo que se propagandeia (essa propaganda, segundo a lógica do autor, volta-se para uma forma de "aclamação", de "glória") sobre a soberania popular que "reinaria" hoje.

O livro, nesse sentido, é de atualidade chocante. Uma das questões essenciais trazidas vem nesse sentido: Agamben reivindica para si Foucault, um autor transgressor. No entanto, deve-se notar que o maior autor socialista da história é contemplado no livro de modo subterrâneo: trata-se de Marx. Agamben vê Marx eivado desse mesmo paradigma teológico, no entanto, na obra, deixa de tratar com cuidado das críticas do autor de O Capital acerca da relação entre a teologia e o capitalismo. Marx sempre tratou da esfera política e da esfera econômica tendo em conta a religião e as vicissitudes dessa - na juventude, trata da alienação religiosa juntamente com a alienação política, por exemplo. Na maturidade, sua obra magna é cheia de metáforas teológicas: fala do "pecado original" ao tratar da acumulação originária", trata depois da "fórmula trinitária" para falar da economia burguesa, trata sempre do fetichismo, e do capital o qual se apresentaria como um novo Deus, etc. Ou seja, Marx vê na base do capital a raiz do véu místico que, como na teologia, envolve as relações sociais capitalistas. Com isso, há uma faceta do livro de Agamben que pode ser muito interessante e para além das intenções do autor: aquela que nos per-mite perceber o modo como esses elementos, já criticados por Marx, se fazem ainda presentes de modo patente em uma sociedade calcada na reprodução ampliada do capital e que, como tal, não é tanto aquela do "desencantamento" weberiano, mas aquela do mundo encantado e mistificado pela forma fetichista da mercadoria.

ENTRE O REINO E A GLÓRIA

Assim, uma questão trazida à tona aqui diz respeito não só à tese central do livro, segundo a qual a relação entre a teologia e a política, até hoje, são muito mais próximas e íntimas do que se imagina. Ela tem consigo um desafio para a esquerda de modo que a práxis de contestação se vê diante do perigo de sucumbir perante o círculo fetichista que, na linguagem de Agamben, coloca-se entre o "reino" e a "glória': Ou seja, como toda obra digna de apreço, há um movimento nesse livro de Agamben que tem consigo problemas que dizem respeito aos destinos da própria humanidade. E isso não pode ser desconsiderado.

A problemática aparentemente despretensiosa em termos imediatos, pois, não pode deixar enganar: o livro do filósofo italiano pode ser um potente catalisador nos debates cruciais para nossa época, a qual se manifesta na medida em que o natural e o racional parecem ser a democracia liberal ao mesmo tempo que os aspectos fetichistas, segundo Marx, relacionados ao próprio ser do capital, não deixam de marcá-la de modo algum. O Reino e a Glória, pois, traz contribuições instigantes, interessantes e que dificilmente poderiam ser alcançadas por autores marxistas: eles raramente se debruçam em uma pesquisa aprofundada e dedicada à teologia. No entanto, algo que deve ser notado é: talvez as pesquisas que mais tenham a ganhar com esse livro sejam aquelas de marxistas os quais, como Marx, poderiam voltar a relacionar a produção e a reprodução do metabolismo social do capital com o véu místico que permeia o capitalismo de forma muito similar àquele da teologia. Considerando-se as ponderações de Agamben, pode-se mesmo enxergar um movimento duplo em Marx - se ele disse em O Capital que "a figura do processo social da vida, isto é, do processo da produção material apenas se desprenderá do seu véu místico quando, como produto de homens livremente socializados, ela ficar sob seu contro-le consciente e planejado" (MARX, Karl. O Capital, Volume I. São Paulo: Nova Cultural, 1988. p. 76), isso talvez tenha se tornado hoje mais complexo e mais urgente, ao mesmo tempo. Por isso, para uma crítica do próprio capitalismo, O Reino e a Glória pode contribuir.

Gyürgy Lukács disse que "a força cega do capital, que precipita os homens à miséria, ao aniquilamento e à morte de um modo incompreensível: tal é a origem atual da religiosidade" (LUKÁCS, Georg. Apontaciones a la Historia de la Estética. México: Grijalbo,1965, p. 214) e talvez deva-se apontar no livro de Agamben uma leitura de grande importância para aqueles que queiram compreender a sociedade contemporânea tendo em conta a transformação da mesma por meio de algo que ultrapasse a política institucional, que, segundo Agamben, tem muito da "gloria consigo, e possa ir em direção à supressão efetiva daquele apontado por autores tais quais Marx e Lukács como fonte da irracionalidade contemporânea: o capital.

*Vitor Bartoletti Sartori é formado em direito pela USP, mestre em história pela PUC-SP, doutorando em filosofia do direito pela USP e autor do livro Lukács e a crítica ontológica ao direito (Cortez editora).

Carel Schmitt
Jurista e filósofo alemão, Carl Schmitt (1888-1985) foi uni dos maiores especialistas em direito constitucional e filosofia do direito do século 20. Embora tivesse ligações com o nazismo, suas obras foram e são lidas por intelectuais das mais diversas vertentes. Agamben, por exemplo, retoma seu conceito de "estado de exceção".

György Lukács
György (ou Georg) Lukács nasceu em Budapeste, na Hungria, em 1885. Filósofo marxista, leitor de Kant e Hegel; durante seus estudos na Alemanha, Lukács conheceu Georg Simmel, Ernst Bloch e Max Weber. De volta à cidade natal em 1915, integrou um famoso círculo de pensadores com Karl Mannheim e Karl Polanyi. Com interesses em Literatura, estética e filosofia política, Lukács deixou importantes ensaios e livros, entre os quais História e Consciência de Classe e A Teoria do Romance. Lukács Faleceu em 1971. 
 
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