O Brasil sem Chico é mais sem graça

Por Aurélio Munhoz*
Chico Anysio, morto na sexta-feira 23

As longas reportagens laudatórias veiculadas na imprensa sobre Chico Anysio não fizeram jus à sua biografia. Pelo menos não do jeito que deveriam ter feito. A costumeira pressa – e sobretudo a ausência de coragem de contrariar os interesses dos barões da mídia – impediram a quase totalidade dos veículos jornalísticos de explicar ao Brasil as verdadeiras razões pelas quais o homem foi um dos maiores humoristas brasileiros.

Chico foi um dos ícones do gênero porque foi o principal responsável pela criação e desenvolvimento de um modelo de humor feito com genuína inteligência, sensibilidade e criatividade. Humor de personagens (mais de 200, no seu caso) identificados com a sociedade brasileira, feito por um profissional do riso verdadeiramente talentoso. Humor de um artista de verdade, forjado na lida do rádio e do teatro, que não raro escrevia seus próprios textos e se preocupava em transmitir conceitos e valores com sua arte. Humor não é só riso e dinheiro, enfim.
Não falamos aqui do talento de Chico Anysio como escritor, dublador e até pintor respeitado, mas da sua extraordinária capacidade de usar a graça, a inteligência e o senso crítico para encarnar tipos atemporais que retratam as mais variadas facetas da alma brasileira, boa parte dela figurinha carimbada da grande mídia – a boa e a ruim, a honesta e a corrupta, a culta e a ignorante, a humilde e a prepotente.

Personagens, desde agora, imortais. Como Alberto Roberto, o ator cheio de estrelismo e vazio de talento. Canavieira e Justo Veríssimo, os políticos ricos, corruptos e populistas. Coalhada, o perna-de-pau ignorante que vivia se defendendo das críticas dos torcedores de futebol. Primo Rico, o homem cheio de soberba que nunca tinha tempo de ajudar seu parente pobre – nem ninguém. Tim Tones, o pastor-picareta que enriqueceu às custas da fé alheia.

E, claro, o Professor Raimundo, o maior e mais copiado de todos os seus personagens, símbolo dos corajosos e mal pagos professores que dão duro nas salas de aula brasileiras, muitas vezes diante de uma legião de idiotas. Chico Anysio certamente tinha seus defeitos, mas eles foram incomparavelmente menores que suas virtudes.

Sua obra se destaca – e, agora, se eterniza – por mostrar ao Brasil boa parte do que verdadeiramente somos, sem retoques. Destaca-se, porém, além de tudo, por conta da mediocridade que impera no humor da tevê brasileira, pelo menos a aberta. Não que não tenhamos humoristas talentosos na tevê, nos teatros ou mesmo nas ruas e praças das nossas cidades. Ocorre que profissionais com este perfil são minoria no rol de humoristas que pulula pelos canais de televisão nativos.

É que, baseada na falsa ideia de que o povo gosta apenas de piadas politicamente incorretas, de cenas de pastelão e de sexo, a tevê brasileira prefere colocar em primeiro plano uma trupe de humoristas grosseiros, arrogantes, bobos e – suprema contradição – sem nenhuma graça, negando espaço a gente dotada de verdadeiro talento. Humoristas escoltados por uma safra de roteiristas-criadores de arquétipos e esquetes pobres e sem sentido. Profissionais do riso que, tristemente, não sabem fazer rir. Mas que, pior, ganham rios de dinheiro com isso, mostrando o grau de inteligência raso de muitos brasileiros, bem como dos que patrocinam este gênero de humor.

Chico Anysio vai fazer muita falta. Se é pieguice e anacronismo sentir saudades de quem nos fez rir durante praticamente toda nossa vida, pago o preço de tecer loas ao passado. Melhor ser piegas acreditando que a inteligência deve predominar sobre a burrice do que me render ao péssimo gosto do humor que predomina na tevê brasileira. “E que pode piorar…”, como diria Urubulino, outro personagem do velho mestre.

*Aurélio Munhoz é jornalista, sociólogo, consultor em Comunicação e presidente da ONG Pense Bicho. Pós-graduado em Sociologia Política e em Gestão da Comunicação, foi repórter, editor e colunista na imprensa do Paraná.

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