Reflexões de um cinéfilo

ANTONIO OZAÍ DA SILVA*


“É este o paradoxo do cinema. O paradoxo da crença. Não se trata de acreditar ou não. Sempre acreditamos de maneira condicional. Sei muito bem que se trata de uma ficção, mas ainda assim deixo que me afete” (Slavoj Zizek).[1]

O filme contribui para a reflexão e sensibilidade crítica? Ou, ao contrário, colabora para apaziguar as mentes e evitar o sofrimento? Há os que assistem a um filme apenas para distrair-se; outros buscam a possibilidade de refletir criticamente – nestes casos, mesmo a emoção está vinculada ao objetivo racional da formação ou auto-formação. Há, ainda, o especialista – ou pretenso especialista – que intenta dissecar a obra cinematográfica, tirar conclusões estéticas e fazer leituras amparadas em argumentos e/ou posição de autoridade. Como ressaltou Vianna (2011, p.42):

“…num extremo, vemos aqueles que querem o filme para diversão sem compromisso, como distensão, lazer, sem apelativos a maiores responsabilidades; no outro extremo, estão os supostos entendidos da sétima arte que, com suas regras de distinção sobre gosto e adequação ideológica, pretendem definir, unidimensionalmente, pertinência para determinados filmes e os “filmes que valem a pena de serem assistidos”.

São formas diferentes do ato de assistir a um filme. Na verdade, a maioria não se pergunta sobre os filmes, pois é motivada pela busca de entretenimento. Para estes, tal reflexão é desnecessária e um devaneio intelectualista. Aliás, o mais provável é que não percam tempo para lê-la. Não obstante, esta forma de conceber e ver um filme é tão legítima quanto a outra. A maneira douta também pode se revelar mera distração, ainda que de cunho intelectualizante. O tipo de filme não define a priori a atitude de quem o assiste. O filme caracterizado como popular, besteirol, etc., pode se revelar um ótimo objeto para a reflexão crítica sobre a sociedade em que vivemos. E um filme tipo “cabeça” pode ser ininteligível e tão chato que apenas os espíritos mais dedicados (e os especialistas) se darão ao trabalho de assistir até o fim. A percepção da realidade não nos faz melhores que os demais. De fato, pretender definir o que deve ou não deve ser assistido revela apenas o elitismo incrustado em nossas mentes. Há gostos e gostos, e devem ser respeitados. O que diferencia é a atitude.

Como escrevi em outro momento[2], não sou crítico de cinema e pouco sei sobre as questões teóricas e técnicas que envolvem a arte cinematográfica. Não sou especialista. Vejo os filmes como meios de conscientização política e recurso pedagógico. Devido à minha formação como sociólogo e cientista político, dificilmente os filmes serão mero entretenimento. Eles contribuem para a reflexão, enriquecem o conhecimento histórico, estimulam e subsidiam temas políticos, sociais e sociológicos. Os filmes não substituem os livros, textos e a exposição e análise teórica e conceitual, mas colaboram para a compreensão do contexto histórico, político e social vinculados aos autores e obras que estudaremos. São, portanto, recursos didático-pedagógicos importantes. A questão é saber usá-los.

Trata-se, então, de reduzir o ato de assistir a um filme a objetivos utilitaristas? Confesso que no momento em que escrevi as palavras acima, a resposta tendia a ser afirmativa. O tempo urge e é insensato perdê-lo em atividades com as quais não nos identificamos e pouco ou nada nos acrescentam (claro, há momentos em que não temos escolhas!). Além do mais, a idéia de que o filme, como uma obra de arte em geral, educa a sensibilidade no sentido da humanização, não me parece convincente. Olho para a história e o que vejo exemplos de homens e mulheres profundamente intelectualizados, eruditos e considerados civilizados, mas capazes de atrocidades e barbáries.

Dificilmente a leitura de uma obra humanista transforma o racista e o nazista. A moral individual não necessariamente determina a atitude civilizatória. As autoridades nazistas eram, em geral, pais e esposos exemplares, cultos e eruditos. No entanto, isto não impediu que eles tratassem os judeus, ciganos, homossexuais, etc., como não-humanos. Em Eichmann em Jerusalém, Arendt (2003, p. 61) relata um caso ilustrativo. Na prisão, um jovem oficial, encarregado de cuidar do bem-estar psicológico do prisioneiro deu-lhe o livro Lolita para que ele o lesse e relaxasse: “Dois dias mais tarde, Eichmann devolveu o livro, visivelmente indignado; “um livro nada saudável” – “Das ist era ein sehr unerfreuliches Buch” – disse ele a seu guarda”. Ao analisar este tipo de personalidade, Hannah Arendt conclui: “O problema com Eichmann era exatamente que muitos eram como ele, e muitos não eram nem pervertidos, nem sádicos, mas eram e ainda são terrível e assustadoramente normais” (Id., p.299).

Parece-me idealismo ingênuo acreditar na humanização pela arte. A leitura e o ato de assistir a um filme reforçam tendências presentes no indivíduo. Não descarto a possibilidade de ocorrer casos específicos em que o indivíduo seja de tal forma impactado que isto o transforme. Mas isto não é regra geral nem em si indica que tal transformação seja positiva.

Ainda que isto aconteça, a questão principal é que o fundamento deste idealismo cândido é uma certa concepção do ser humano dividido entre o bem e o mal, o civilizado e o bárbaro. Esta dicotomia simplifica o ser complexo que é o humano, sua natureza inerentemente boa e má em tenso convívio. O mais bondoso dos homens pode ser capaz de, em determinadas circunstâncias, cometer o ato mais bárbaro; e o pior dos humanos pode se revelar capaz de atitudes positivas inesperadas.

Os conceitos de civilizado e bárbaro mascaram muitas coisas – geralmente, o bárbaro é sempre o outro a ser dominado. Deixando de lado as questões de cunho político-histórico, diria que o bárbaro habita no civilizado, e vice-versa. O pensamento dicotômico tende a ser maniqueísta e, em sua santa ingenuidade, é incapaz de assimilar o mal enquanto componente da natureza humana. Não basta condenar a barbaridade, embora isto já seja um bom início. O crucial é compreender o humano real que age, pois os nazistas, racistas e outros não perdem sua humanidade por agirem como bárbaros em nome da civilização. O desafio está em compreender o humano, demasiado humano em toda a sua complexidade.

Admito, porém, que é um erro restringir o ato de assistir a um filme a objetivos de caráter meramente político-pedagógico. É certo que isto não significa o desconhecimento nem a deslegitimação de outras possibilidades. No entanto, revela uma certa impaciência com outros usos e práticas vivenciadas no campus sobre o o “assistir ao filme”. Há muito, por exemplo, que deixei de aceitar convites para comentar filmes em atividades acadêmicas. Pareceu-me sem sentido “discutir o filme”. Algumas experiências que presenciei deixaram-me a impressão de que a discussão sobre o filme era uma espécie de “onanismo intelectual”, especialmente quando o que deveria ser o “debate” concentra-se, na verdade, na fala dos mesmos de sempre.

Não descarto a análise e reflexão individual sobre o filme, mas não me parecia produtivo ficar a debater após a sua projeção – ainda mais considerando que em certos eventos a maioria comparece apenas para assistir e vai embora tão logo começa a aparecer os créditos na tela, ficando apenas os “entendidos”, a minoria, os que sempre estão a expor seus egos em falas que expressam gozo, inclusive com a minha cumplicidade. Em alguns destes momentos perde-se até a noção das coisas e os convidados para comentar o filme tornam-se coadjuvantes diante da ânsia de falar concentrada em um ou outro dos presentes. Claro, há eventos acadêmicos do tipo em que a maioria do público permanece após o acender das luzes, mas apenas enquanto a lista de presença não passa para ser assinada – com efeito, são eventos formais e regidos pela racionalidade burocrática.

Permaneço com dúvidas e resisto a me deslocar para assistir e discutir a filmes. Até porque, em geral, são filmes que já assisti ou que posso encontrar na internet – bendito seja o Making Off e outros sites do gênero! No entanto, reconheço que estava equivocado. Em 2011 participei do projeto Cinema, História e Educação, coordenado pelo Prof. Dr. Raymundo de Lima (DFE/UEM) e assisti a vários filmes, seguidos de comentários e discussão. Aprendi muito com as exposições dos comentadores e as falas dos presentes. Admito que o debate sobre os filmes, quando bem encaminhados e com o egocentrismo sob controle, podem geram bons resultados.

Mas ainda fico a me perguntar: o filme presta-se a ser objeto de discussão? Ora, se há quem está disposto a organizar atividades com este objetivo e tem audiência, por que não?! A minha resistência não anula o fato de que esta é uma das formas encontradas no campus para a utilização da obra cinematográfica. É legítima. E, afinal de contas, cada um utiliza o seu tempo como considera melhor e mais apropriado.

Por que, afinal, assistir a um filme?[3] Não há resposta única e todas são legítimas. No entanto, seja qual for a motivação de quem assiste, é preciso ter tempo disponível e recursos.[4] Fico a pensar na quantidade de tempo que utilizo para assistir filmes; é um tempo que não volta e que poderia ser utilizado em outras atividades. Considerando-se que superei a fase de assistir a filmes apenas por entretenimento, são momentos de reflexão e, portanto, susceptíveis à angústia, mas necessários à lucidez. O importante é não tomar a arte pela realidade.

Por mais que o filme represente o real, é fundamental não esquecer o fato óbvio de que um filme é um filme. É preciso superar o “paradoxo da crença”. As vezes me parece que alguns tomam os livros e filmes enquanto realidades em si e transportam-se do mundo real para as representações que a arte proporciona. Em outras palavras, o ponto de partida para pensarem deixa de ser a realidade da vida e passa a ser as formas que esta se apresenta na literatura e no cinema. Refletir sobre estas questões é também uma forma de não perder a consciência dos limites e perigos que o ato de assistir a um filme envolve.

Referências

ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

VIANNA, Alexander Martins. “Cinema, emoção e análise sociocultural: reflexões sobre uma didática de uso do filme em situações de ensino e pesquisa”. In: REA, nº 125, outubro de 2011, p.41-50. Disponível em http://www.periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/article/view/13223/7977

Documentário

O guia pervertido do Cinema. (Reino Unido/Áustria/Holanda, 2006, 160 minutos; Direção: Sophie Fiennes).

* ANTONIO OZAÍ DA SILVA é docente do Departamento de Ciências Sociais, Universidade Estadual de Maringá (DCS/UEM).

[1] Citado do documentário “O guia pervertido do Cinema” (Reino Unido/Áustria/Holanda, 2006, 160 minutos; Direção: Sophie Fiennes)

[2] Ver É apenas um filme?, publicado em http://antoniozai.wordpress.com/2011/02/19/e-apenas-um-filme/

[3] Sugiro a leitura de “Por que assistir a um filme?”, disponível em http://antoniozai.wordpress.com/2008/06/21/por-que-assistir-a-um-filme/

[4] Para determinados setores da sociedade, especialmente a classe média, ir ao cinema ou mesmo assistir a filmes baixados da internet parece algo “natural”. Contudo, nem todos têm os recursos necessários e, para muitos, assistir a um filme é algo inalcançável ou muito difícil. Sugiro a leitura de “Cinema na Periferia, Cinema da Periferia”, disponível em http://espacoacademico.wordpress.com/2011/09/21/cinema-na-periferia-cinema-da-periferia/

Fonte: http://espacoacademico.wordpress.com/2012/03/21/reflexoes-de-um-cinefilo/
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