Cordão da Mentira: Um grito que se move no ar

do Coletivo Político Quem

“A fantasia é como a mentira. Ela pode ser usada à vontade. No Brasil, com frequência a fantasia serve para encobrir a mentira. Um bom exemplo procede da chamada conciliação conservadora, que foi entendida como ‘transição democrática’. De fato, ela nunca passou de uma feia e nefasta negociação política, pela qual a distensão e a abertura dos generais Geisel e Figueiredo ganharam foros civis. Não deve ter sido uma negociação fácil. Os personagens vivos calam-se. Os fatos reais não transpiram. Por isso, o silêncio fala de per si…”.

Assim já nos alertava Florestan Fernandes, em 1988, em uma lição que aparentemente ainda não foi totalmente absorvida pela nossa sociedade. Disso são vivos testemunhos as festividades organizadas por militares para comemorar o aniversário do golpe, a repressão a qualquer voz que os condene, a eterna invocação da Lei da Anistia de 1979 como uma espécie de limite à crítica em prol do “bem da sociedade brasileira”.

Sobre o pretexto de celebrar uma pretensa “reconciliação nacional”, verdadeira vocação brasileira, selada sobre os auspícios de uma pacífica anistia. Ainda aqui, a fantasia de uma “reconciliação nacional” serve para encobrir a mentira de democracia efetiva, quando, na realidade, a continuidade do terrorismo de Estado, dirigido atualmente sobretudo contra a população de baixa renda (ela própria desde sempre um alvo da violência estatal), é prova de que a ditadura civil-militar, em certa medida, perdura e repete-se. Sob a aparente calmaria da anistia, há um conflito a todo o momento ocultado.

Nesse sentido, se Quem pode dizer que o golpe civil-militar de 1964 perdura, é também porque o golpe foi antes o bloqueio de um acontecimento do que propriamente um acontecimento. Longe de ser um fato, ele foi um contra-fato, uma reação que se opunha a uma tentativa de criação. “Contra-revolução”, fazia questão de dizer Florestan Fernandes, não para justificar sua existência e amenizar seu caráter golpista – como supunha Quem muito mal compreendia o sociólogo –, mas para destacar seu caráter re-acionário, inequívoco levante conservador de uma ordem que, diziam os oprimidos, não podia mais ser conservada.

É no interior desse cenário que nasce o Cordão da Mentira, grande denúncia dessas mentiras que continuam a povoar o imaginário brasileiro. A escolha da data de estreia não poderia ser mais propícia: conta-se que o dia da mentira surgiu por conta de uma notícia falsa sobre a morte de D. Pedro I, publicada na primeira edição de um jornal mineiro chamado, justamente, “A mentira”.

Há 48 anos, a mídia brasileira divulgava outra mentira: “A Revolução de 1964”, graças à qual o país finalmente reencontraria a ordem e o progresso ameaçados por Quem tinha outros projetos nacionais. Há 33 anos, se divulgou mais uma mentira: a tão falada “reconciliação nacional”, cujo marco seria a Lei da Anistia de 1979. Por fim, ainda hoje, continuam a propagar as mesmas mentiras: o golpe civi-militar de 1964 teria sido um acidente de percurso, página virada em nossa atual sociedade reconciliada, tão respeitosa de seus marcos democráticos.

Mas a verdade do dia 1 de abril é que mentira e imprensa sempre foram cúmplices autorais na redação da história brasileira, cujas entrelinhas serviu como exílio para os espúrios interesses de empresários, políticos, religiosos, médicos, funcionários públicos e militares. É a lembrança de que o aparato repressivo do Estado, durante os anos de chumbo, perpetrou algo mais do que a violação sistemática de direitos humanos fundamentais. Ele criou um grande silêncio.

***

A fantasia, ou melhor, as fantasias que, no Brasil, escondem a mentira da democracia nacional, de tão coladas ao corpo já não são mais percebidas. Todos nós dormimos com elas como se fossem peles. A perda do estranhamento parece resultar do prolongamento e da extensão do carnaval ditatorial pela história e geografia brasileiras, graças ao patrocínio sempre fiel dos jornais, dos botijões de gás, dos canteiros de obras, das balas de todos os gostos, do capitão e do capital.

Contra esse estado de coisas, mais eficaz do que sustentar um espelho na frente de Quem está fantasiado sem o saber, é multiplicar as fantasias até o paroxismo. Eis o que pode uma festa. Daí porque carnavalizar a mentira brasileira significa invertê-la em meio à ironia, apontando, pelo menos por alguns momentos, para sua possível superação. Carnavalizando a história oficial que é repetida pelo senso comum, lembramos dos acontecimentos subterrâneos não contados nessa história, e os chamamos para virem à tona. Carnavalizando a mentira, a despojamos dos seus ares de verdade e denunciamos o caráter farsesco da democracia brasileira, formulando o chamado à construção de uma democracia autêntica.

É daí que surge, inesperada, a força do Cordão. Nesse ponto, talvez não seja despropositado recordar as origens históricas dessa forma de manifestação popular. De fato, os primeiros cordões nasceram, precisamente, da interação entre grupos de ex-escravos, pobres imigrantes europeus e migrantes do Nordeste brasileiro, sendo assim constituído por uma variedade de influências, em sua maior parte oriunda das camadas baixas da sociedade brasileira.

Não surpreende, portanto, que logo as autoridades públicas, em concordância com uma elite em ascensão, tenham logo cuidado de sufocar essa efervescência cultural, numa moralizante tentativa de disciplinar isso que via como os arroubos do povão. Abafando a voz do povo, impondo rigidamente, a ferro e fogo, uma cultura advinda do eixo Europa-Estados Unidos, logo as elites obtiveram sucesso em desmobilizar esses grupos iniciais, aos quais não restou outra saída a não ser se unificar em grupos mais organizados, em uma tentativa de resistência aos desmandos do andar de cima. Nesses agrupamentos, ainda predominava uma solidariedade de classe, no qual os componentes do grupo se auxiliavam mutuamente, através, entre outras coisas, da criação de fundos comuns para o auxílio dos mais desamparados. Contudo, mesmo esses últimos redutos de solidariedade foram tomados de assalto pela nova burguesia, a qual buscou domesticar seus impulsos solidários, enquadrando-os na monotonia de suas próprias escolas, devidamente aparamentadas para agradar ao seu gosto aristocrata, mais tarde refletido nas rádios e nos LPs das grandes gravadoras.

Em outras palavras, no lugar da solidariedade do grupo, no lugar da espontânea manifestação popular, a pobre competição por um lugar ao sol das gravadoras, muitas vezes ao som de enlatados importados. No entanto, essa espontaneidade barrada tem a força da água acumulada e não desaguada, do riso que, contido, mais tarde se gargalha. Quem grita a vivência desiludida de uma realidade interrompida, de uma história bloqueada, de uma falsa democracia cuja substância normativa foi esvaziada e nunca mais recuperada.

O Cordão da Mentira, resultado de um processo coletivo de organização, que contou com a participação de diversos coletivos políticos, movimentos sociais e agremiações artísticas, se propõe como um resgate dessa manifestação popular então sufocada. É importante notar que, do mesmo modo como as diversas origens dos componentes dos antigos cordões não impediam o sucesso de suas manifestações, assim também as muitas divergências entre os grupos componentes do atual cordão não bloqueou a discussão exaustiva sobre cada detalhe do ato. Ao contrário, a multiplicidade de cores, formas, ritmos e vozes, marca das velhas manifestações carnavalescas e que constituíam precisamente sua riqueza, tornou-se, no presente, o espaço mais adequado para representar os conflitos e tensões que caracterizam a política.

Nesse sentido, o Cordão da Mentira pôs na rua a política naquilo que ela possui de mais essencial: o confronto com uma diferença que insiste em romper com toda unidade. Ressonância do grito esganiçado do militante torturado, do estudante morto, do sem-teto despejado, do craqueiro “gentrificado”: todos eles, silenciados. O grito de Quem vai ao Cordão da Mentira não é senão o extravasar do “grito parado no ar”, como dizia Guarnieri, pois calado no peito, da esquerda desde 64. “José Guimarães, presente!”, “Marquito, presente!”, “Henrique Barbosa, presente”, “todos os assinados e desaparecidos, presentes”: brados que centenas fizeram ecoar pelas ruas de São Paulo, com flores, placas, estandartes, lágrimas e coragem. Em tempo de mentira, Quem grita para reconstituir o cordão da história.

Fonte: http://www.viomundo.com.br/
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