O capitalismo está num ponto de inflexão - Entrevista com David Harvey


Época - Guilherme Evelin

O geógrafo britânico, um dos principais intelectuais marxistas da atualidade, diz que a economia global não sustentará no futuro as taxas de crescimento

BRITÂNICO DAVID HARVEY REPRESENTA AQUILO QUE MUITOS JULGARAM QUE SE TORNARIA jurássico depois da derrocada dos regimes comunistas, na década de 1990.É um adepto da visão do economista e filósofo alemão Karl Marx sobre o sistema capitalista. Nos últimos 40 anos, Harvey tornou-se um dos principais divulgadores da obra de Marx e especializou-se em ministrar cursos de leitura de O capital. Geógrafo de formação, egresso da Universidade de Cambridge, ele é atualmente professor emérito de antropologia da Universidade da Cidade de Nova York.Um intelectual respeitado por suas análises a respeito da urbanização no mundo contemporâneo, Harvey esteve no Brasil recentemente para lançar seu livro Para entender 'O capital' (Editora Boitempo) e uma série de conferências.

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ÉPOCA - Por que as pessoas devem ler O capital, de Marx, nos dias de hoje, mais de 20 anos depois da queda do Muro de Berlim?

David Harvey - O capital é um livro muito interessante. É uma peça clássica da literatura que dá muito prazer de ler. Outra razão para lê-lo é que O capital não é sobre socialismo, comunismo ou qualquer coisa do gênero. É um exame crítico dos problemas e das contradições do capitalismo. Sua leitura é particularmente informativa no momento atual.

ÉPOCA - Quando Marx escreveu O capital, ele vivia na Inglaterra do século XIX. Sua visão não se tornou ultrapassada?

Harvey - Quando Marx articulou o argumento de que é terrivelmente importante para o capital controlar o tempo do trabalhador e extrair dele o máximo possível, ele ilustrava isso com as condições que podiam ser achadas nas fábricas de seu tempo, na Grã-Bretanha. O fascinante é como posso ter relatos de processos de trabalho nas sociedades contemporâneas do Paquistão, do México ou do Brasil e colocar no capítulo de Marx sobre o dia de trabalho. Você não notará diferenças. Há uma continuidade na exploração do trabalho que nunca desapareceu no sistema capitalista.

ÉPOCA - Os críticos dizem que Marx subestimou a capacidade do capitalismo de se reinventar. Como o senhor vê essa crítica?

Harvey - Esses críticos não leram Marx muito bem, porque ele era um grande admirador da capacidade do capitalismo de se reinventar por meio do dinamismo tecnológico e da destruição criadora do trabalho (descrita pelo economista austríaco Joseph Schumpeter). Marx não nega a adaptabilidade e a flexibilidade do sistema capitalista. Ele, às vezes,faz observações polêmicas sobre o fim do capitalismo. O principal sentido de seu texto é que o sistema é muito dinâmico e contém, ao mesmo tempo, sérias contradições que produzem crises maciças em certas circunstâncias. Ninguém pode rebater o argumento de que o capitalismo é livre de problemas. Ao contrário, é muito inclinado a ter crises. Marx fornece uma compreensão muito boa de onde essas crises vêm, enquanto a economia convencional não nos dá boas explicações.

ÉPOCA - Marx não errou ao prever que o capitalismo seria superado pela luta da classe trabalhadora? Em muitos países, vivemos agora numa sociedade pós-industrial, e os trabalhadores se mantêm, em sua maioria, a favor do sistema.

Harvey - É interessante ver que os grandes movimentos revolucionários do século XIX não foram liderados por trabalhadores de fábrica. Se você olhar as revoluções de 1848, em Paris, elas foram uma mistura de burgueses descontentes com artesãos e trabalhadores. Os trabalhadores de fábrica tiveram um papel pequeno. Essa ideia dos trabalhadores de fábrica como centro das transformações políticas sempre me soou um pouco errada. Sou a favor de uma definição mais ampla da classe trabalhadora do que a definição clássica marxista. Para mim, a luta de classes é articulada com a urbanização. Qualquer um que contribui para a produção e reprodução da vida cotidiana na cidade é parte da classe trabalhadora contemporânea. As lutas urbanas são tão significativas quanto as que ocorrem nas fábricas ou em ambientes de trabalho.

ÉPOCA - Em suas conferências, o senhor cita uma série de contradições do sistema capitalista, relacionadas à crise de 2008. Essas contradições levarão ao fim do sistema?

Harvey - Não é possível prever o futuro. Em parte, porque o futuro do capitalismo é ditado por estratégias que surgem da própria classe capitalista, como novas tecnologias, novas formas de organização e novas estratégias de intervenção do Estado. Essa evolução também é fortemente influenciada pelo estágio da luta de classes, da organização dos trabalhadores, do grau de protesto social que o sistema é capaz de absorver.

ÉPOCA - O senhor crê que, algum dia, o capitalismo será superado?

Harvey - O capitalismo atualmente está num ponto de inflexão. Há certos problemas que se tornam mais e mais enfáticos. Entre eles, destaca-se o problema da taxa de crescimento médio anual da economia, impossível de sustentar num ritmo de 3% nos próximos anos. Temos de pensar na criação de uma sociedade de crescimento zero. Isso significa, em última instância, a criação de uma sociedade não capitalista. Você e outros poderiam dizer que estou sonhando ao afirmar isso, mas o sistema capitalista não é para sempre.

ÉPOCA - Como aplicar essa tese de crescimento zero a países como o Brasil,onde há milhões de pessoas na pobreza? Aqui, o governo é questionado pelas baixas taxas de crescimento.

Harvey - Esse é um dos sinais desse ponto de inflexão do sistema capitalista. Logo depois da crise de 2008, na esteira da China, o crescimento floresceu em lugares como Austrália e América Latina. Agora, a China está desacelerando, e o impacto geográfico dessa desaceleração econômica começa a ser sentido nessas partes do mundo que se saíram bem depois da crise de 2008" como o Brasil. Deveríamos estar pensando mais claramente não sobre o que fazer para voltar a taxas de crescimento médio anual de 3% ou 4%, mas sim em estratégias bem diferentes de redistribuição. Infelizmente, não acre dito que muitas pessoas estejam dando atenção a isso. Está todo mundo tentando voltar à locomotiva do crescimento, embora eu não acredite que ela esteja mais aí.

ÉPOCA - O capitalismo foi responsável por tirar milhões de pessoas da pobreza em todo o mundo. Como fazer isso sem a capacidade criadora de riqueza do capitalismo?

Harvey - A perspectiva de Marx era muito apreciativa do capital, por suas possibilidades de incrementar o bem-estar material. O grande problema é como o capitalismo pode suprir as necessidades de toda a população global. Seria relativamente fácil, se tivéssemos outro sistema redistributivo, que não permitisse tantos bilionários em todo o mundo. Sim, o capital nos fornece meios de aliviar a pobreza global, mas, ao mesmo tempo, nega a possibilidade de eliminar a pobreza global, por causa do viés classista que existe em suas práticas distributivas - viés classista que se deve em parte ao modo como o Estado organiza suas intervenções.

ÉPOCA - Acredita-se que essa crise desencadeada em 2008 logo será superada nos países mais desenvolvidos, por causa de inovações, como o gás de xisto na área de energia. O senhor não acredita nessa hipótese?

Harvey - Realmente, pode haver uma reorganização da produção no setor de energia, mas não acho que possa ser uma inovação revolucionária. No passado, a maior parte das inovações técnicas estavam concentradas em processos mecânicos. A nova fronteira tecnológica estará em processos orgânicos, como engenharia biomédica, engenharia genética e a criação de máquinas inteligentes. Por várias razões, sou profundamente cético de que essa nova fronteira será suficiente para sustentar o capitalismo e tirá-lo da atual crise. Uma das razões é que essas inovações na esfera bioeconômica são mais deslocadoras de trabalho do que criadoras de trabalho. Elas podem criar, no futuro, um problema ainda mais crucial de empregos e oportunidades de trabalho do que atualmente temos.

ÉPOCA - Há uma grande discussão sobre a ascensão do modelo de capitalismo de Estado da China. De seu ponto de vista, como a China mudará a dinâmica do capitalismo?

Harvey - A China fez um grande favor para o capitalismo global, ao se expandir dramaticamente nos últimos sete ou oito anos. Mas o modelo de desenvolvimento da China é altamente instável. Muito dele se deve ao desenvolvimento de infraestrutura e a uma urbanização rápida. Isso está causando movimentos altamente especulativos em mercados imobiliários que se parecem muito com os que ocorreram nos Estados Unidos, na Espanha e na Irlanda nos anos 2000, O modelo chinês internaliza muitas das contradições que levaram ao crash de 2008. Tenho dúvidas se a estratégia chinesa será eficiente a longo prazo. Ela poderá ser uma fonte de uma crise muito séria.
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