Incerteza e frustração: a crise na Espanha pelos olhos dos estudantes

Por Roberto Almeida | Berlim em Opera Mundi

Com desemprego de cerca de 50% entre os jovens, espanhóis estudam possibilidades para futuro

Quatro meses depois de publicar Jovens Gregos, seu primeiro ensaio sobre a crise europeia com estudantes de Tessalônica, o fotógrafo alemão Kilian Foerster manteve-se na trilha dos olhares duros da juventude afetada pela desesperança e rumou para Madri, onde as oportunidades de trabalho também são escassas, com desemprego entre seus pares na casa dos 50%, e o desejo de migração é cada vez maior.

Opera Mundi selecionou, com a ajuda de Foerster, dez relatos de estudantes espanhóis que pincelam mudanças dramáticas em suas vidas, causadas pela turbulência econômica na Europa e a destruição do Estado de bem-estar social. Conheça-os abaixo. São jovens de 16 a 28 anos, desenganados pelas instituições do país e parte de um movimento que vai moldar o modo de pensar das futuras gerações espanholas.

“Os jovens de Grécia e Espanha foram forçados a tomar as rédeas do próprio destino. Espero que tenham força, energia e resiliência para não serem absorvidos por políticos ou partidos populistas”, afirma Foerster. “Uma sociedade moldada por ganhos materiais e riqueza pode acabar produzindo ambição e egoísmo.”
Miriam, 16 anos, estudante (foto abaixo)

“Eu gostaria de estudar psicologia mas na Espanha agora há pouquíssimas oportunidades de emprego nessa área. Mesmo como caixa de supermercado está difícil de achar trabalho. O futuro é incerto e eu penso em migrar para os EUA. Minha mãe já foi para lá em busca de trabalho. Agora eu moro com meu pai. Em geral, nós ficamos mais solidários uns com os outros por estarmos em situação similar. No final das contas eu só confio nos meus amigos, mesmo.

Kilian Foerster
Acho que todos os políticos deveriam renunciar, porque eles são verdadeiramente os únicos culpados. Eles fazem promessas falsas, mentem para a gente e só se preocupam em assegurar seus próprios cargos.”

Juan Carlos, 25 anos, engenheiro de pontes e estradas, faz mestrado em energias renováveis e trabalha como garçom

“Na universidade não tivemos qualquer prática, e sem ela não tenho chance de encontrar um emprego. Até agora só consegui um cargo de aprendiz na prefeitura por seis meses. Se tivesse um emprego na minha área somente alguém com muitos anos de carreira e proficiência em idiomas seria contratado. Tenho estudado alemão há dois anos mas se as coisas continuarem assim vou migrar para a Bolívia.

Se essa é a única saída, você tem que dar um jeito. A crise ensina às pessoas serem mais prestativas, mas você só consegue ajudar os outros se não tiver sido afetado.

Amigos meus, que ganhavam um bom salário e compraram apartamentos, hoje estão desempregados e com muita dificuldade em pagar os financiamentos. Antes, o governo encorajava a comprar imóveis. Bem, era natural para muita gente comprar com financiamentos e pegar dinheiro no banco. Esse mau uso do crédito se espalhou mais e mais e finalmente destruiu tudo. Eu ainda voto, mas perdi a esperança que isso possa mudar qualquer coisa.”

Alejandro, 18 anos, estudante

“Não sei ainda o que fazer depois da escola, se vou estudar ou tentar notas mais altas antes. Meu tio perdeu o emprego e está planejando migrar para a Guiné Equatorial, que é de onde sua mulher vem. Lá os empregos estão supostamente melhores que aqui.

Os políticos não sabem administrar o país e não ligam para uma distribuição mais igualitária de renda. Eu só confio nos meus pais porque eles sempre estiveram ao meu lado - e vão continuar assim no futuro.”

Beatriz, 20 anos, estudante de farmácia

“Antes de qualquer coisa gostaria de terminar meus estudos em farmácia aqui na Espanha, então fazer um mestrado e ir para um país em que se possa falar inglês, como o Reino Unido ou Noruega, já que não há pesquisa em farmácia aqui para mim. Seria bom conseguir experiência no exterior pelo programa Erasmus [custeado pela União Europeia, que promove intercâmbio de estudantes].

Minha mãe trabalha como professor e meu pai está desempregado desde que fez 60 anos e sua empresa fechou.

As pessoas não ficaram de fato mais generosas por conta da crise, mas é verdade que agora há mais sopões, etc, para as pessoas que passam necessidades. Acho que muitos na Espanha viviam além do que realmente podiam - tudo foi comprado a crédito.”

Celia, 17 anos, estudante

“Minha mãe está em casa e meu pai trabalha em uma farmacêutica que vai ser fechada. Ele teve sorte, porque seu contrato é antigo e inclui pagamentos extras. Não sei se ele vai conseguir encontrar um novo trabalho.

Na escola, cursos adicionais de música estão ficando cada vez mais caros e não posso mais pagá-los. Eu gostaria de estudar e então ir para o exterior, porque aqui as coisas estão cada vez mais difíceis. Eu sinto que vou fazer isso mesmo - meus dois primos mais velhos foram depois da universidade.

Na minha opinião, os políticos espanhóis são simplesmente vergonhosos, são ladrões. Nós votamos neles porque confiamos e queremos que tomem decisões por nós. Mas eles não fazem nada. Em vez disso, tiram vantagens do cargo para si próprios.”

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Javi, 25 anos, personal trainer, faz um mestrado em gestão de pessoas (foto abaixo)

“Acho que os ventos estão em meu favor para achar trabalho. O setor de esportes e lazer foi menos afetado pela crise; as pessoas ainda gastam com isso. Trabalhei em Manchester e em Londres por dois anos, mas voltei para fazer meu mestrado. Depois disso, planejo migrar para os EUA ou para a Austrália por razões pessoais. Há melhores ofertas de trabalho e você consegue uma renda melhor do que na Espanha.

Kilian Foerster
A maioria das pessoas só pensa em si mesmas, muitas viviam acima do que podiam e agora receberam os resultados. Em vez de comprar um carro usado, por exemplo, muitas compraram um novo a crédito. Os créditos foram concedidos muito facilmente.”

Marta, 21 anos, estuda lingüística hispânica e trabalha em um bar

“Vou terminar meus estudos em dois anos e muito provavelmente me endividar para fazer meu mestrado. Quero fazê-lo nos EUA onde já estive e onde há mais oportunidades. Mesmo com um mestrado, o único jeito de sobreviver na Espanha seria trabalhar como garçonete.

Meu mestrado custa 4,5 mil euros em Madri, enquanto sairia por 500 euros na Sorbonne, em Paris. Para mim, as pessoas não mudaram: as que sempre ajudaram os outros continuam ajudando, enquanto as outras, que só pensam em si mesmas, continuaram na mesma. Os bancos e as grandes empresas são responsáveis pela situação atual, já que eles determinam, em termos, o desenvolvimento econômico e o futuro; o governo depende deles. Só acredito nos meus próprios talentos e no meu namorado.”

Sara, 17 anos, estudante

“A geração mais jovem, especificamente, foi atingida por essa situação difícil e toda sua vida futura será afetada pela crise. O sistema educacional se deteriorou, muitos professores estão menos motivados por causa das reformas e as aulas muitas vezes não acontecem porque eles estão nas demonstrações.

Penso muito no futuro e eu gostaria de fazer um curso na universidade em relações internacionais. Porém, estudar numa universidade espanhola se tornou mais caro e há pouquíssimas vagas nesse campo de trabalho aqui na Espanha. Assim, vou tentar ir para a Alemanha.

As pessoas estão tão preocupadas com o futuro que só pensam em si mesmas. Por outro lado, há muitas demonstrações pedindo ao governo que crie trabalho e um sistema como oportunidades iguais para todos. Enquanto isso, os políticos simplesmente ignoram o que as pessoas estão demandando; em vez disso, eles seguem os comandos de Angela Merkel.

É por isso que o governo é o culpado pela crise, assim como a bolha do mercado imobiliário. Meu maior desejo é conseguir um trabalho decente na Espanha depois da universidade.”

Jaime León, 20 anos, faz curso técnico para se tornar assistente industrial

“Eu cresci na Alemanha e sou bilíngue. Eu estou fazendo um curso de dois anos para me tornar assistente industrial na ASET [escola técnica alemã para estrangeiros]. Falamos sobre a crise entre amigos e também temos amigos que perderam seus empregos.

No geral, o espanhol é amistoso mas recentemente comentários sobre Angela Merkel e a política alemã se tornaram mais frequentes. Acho que a bolha imobiliária e os empréstimos são as causas da crise.

Assim que eu terminar meu curso eu gostaria de voltar para a Alemanha e conseguir um diploma universitário na área de economia.”

Sandra, 28 anos, desempregada, estudou marketing e agora ajuda artesãos a vender seus produtos (foto abaixo)

“Trabalhei em um supermercado por nove meses e depois de sair de licença por uma semana em virtude de uma morte na família fui demitida. Fiquei bastanta brava porque eu recusei outra oferta de trabalho por causa desse emprego.

Kilian Foerster
Eu e um amigo vamos tentar abrir uma agência de eventos porque trabalho comissionado é imprevisível e mal pago. Não planejo sair do país porque a Espanha tem um grande potencial de desenvolvimento. A gente deveria melhorar os serviços para turistas e tentar caminhos mais originais para o turismo. É uma pena que tantos migrem - porque no fundo dos nossos corações somos corajosos e boas pessoas.

Com 22 anos eu consegui um financiamento de 150 mil euros para um imóvel em Toledo que hoje vale apenas 30 mil. Meus pais foram fiadores do contrato e se eu não conseguir pagar eles vão perder seu apartamento. No momento eu vivo em Madri por não ter dinheiro para pagar a gasolina para ir de Toledo a Madri.

Os político não fazem nada sobre a situação; eles deveriam ser substituídos por gente nova com boas ideias para tomar decisões pensadas. Muitas empresas novas e pequenas começaram a funcionar. Mas seus donos normalmente trabalham na ilegalidade porque não há apoio do governo; pelo contrário, as coisas ficaram mais difíceis para eles ao pedir licenças caras para funcionar.”

Veja mais relatos da série Jovens Espanhóis (em inglês) no site do fotógrafo. Seu próximo destino será a Itália.
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