Desigualdade não é um acidente, é inerente ao capitalismo rentista

Uma das grandes novidades da primeira década desse século foi a irrupção do movimento antiglobalização em suas versões ‘O Povo de Seattle’ [milhares de manifestantes impedindo a rodada da OMC] e o ‘Povo de Porto Alegre’ [Edições do Fórum Social Mundial]. Na esteira de ambos – sempre por ocasião dos encontros do G-8, FMI, Banco Mundial – grandes atos ocorreram em Quebec, Praga, Melbourne, Gênova. Agora, nessa década, assiste-se a novos movimentos como Occupy Wall Street e o Movimento dos Indignados.

Embora com diferenças, tantos os movimentos do início da década como os de agora, denunciam o fato de que o “capitalismo não está mais funcionando”. A consigna do movimento Ocuppy ‘We are the 99%’ resume a percepção de que o mundo foi engolido pela financeirização e é controlado por uma espécie de superclasse mundial não superior a 1% da população mundial.

Essa percepção do movimento antiglobalização e dos novos movimentos ganhou um aliado de fôlego, a obra Capital in the Twenty-First Century [O capital no século XXI]. A tese dos movimentos de que o mundo é controlado por uma oligarquia financeira é corroborada com consistência pelo livro. De autoria de Thomas Piketty, jovem economista francês, a obra já é considerada um clássico e vem ganhando enorme repercussão em todo o mundo.

A obra de Piketty, elogiada por economistas progressistas de peso como Joseph Stiglitz e Paul Krugman, ambos prêmios Nobel da Economia, e reconhecida como consistente por economistas conservadores é considerada inovadora. A interpretação é de que suas teses levarão a mudanças substanciais na maneira pela qual pensamos a sociedade e concebemos a economia.

A tese central do livro de quase 700 páginas é de que numa economia onde a taxa de rendimento sobre o capital supera a taxa de crescimento, a riqueza herdada sempre crescerá mais rapidamente do que a riqueza conquistada, ou seja, estamos retornando a um ‘capitalismo patrimonial’. Segundo Piketty, o crescimento da desigualdade é inerente ao capitalismo porque a taxa de retorno ou rendimento do capital (R: rate of capital return) é superior à taxa de crescimento econômico (G: rate of economic growth), relação resumida na versão em inglês do livro como “R>G” (R maior que G).

A explicação é que os juros da renda, quer seja um portfólio de ações, um bem mobiliário ou um complexo industrial, giram em torno de 5%. Se a taxa de crescimento cai abaixo disso, os ricos ficam mais ricos. E, ao longo do tempo, os herdeiros de grandes fortunas começam a dominar a economia.

Piketty demonstra, portanto, que hoje é a receita do capital, e não a renda do trabalho, que predomina no topo da distribuição de renda. Dessa forma, destaca, além de estarmos retornando ao século XIX, em termos de desigualdade de renda, estamos no caminho de volta ao capitalismo patrimonial, na qual o topo da economia é ocupado não por indivíduos talentosos, mas por dinastias familiares. Se o sujeito não nascer na riqueza, será bastante difícil enriquecer.

Logo, o fato de que os filhos dos ricos podem desfrutar de uma vida sabática, enquanto os filhos dos pobres continuam transpirando dentro de seus uniformes não é acidental: é o sistema funcionando normalmente.

Segundo o conservador The Economist, hoje 1% da população tem 43% dos ativos do mundo. Os 10% mais ricos detém 83%.

Assim, o autor d’O capital no século XXI põe por terra o mito central do capitalismo e a sua justificativa moral: aquela de que a riqueza é gerada pelo esforço, pela criatividade, pelo trabalho, pelo investimento correto, pelo risco assumido. Piketty desmonta a tese dos conservadores: a insistência em que vivemos em uma meritocracia na qual se ganham grandes fortunas e estas são merecidas.

Nada mais mentiroso diz Piketty. Segundo ele, “uma das grandes forças divisionistas do trabalho hoje é o que chamo extremismo meritocrático. Este é o conflito entre bilionários cuja renda vem de imóveis e ativos, tais como um príncipe saudita, e de administradores. Nenhuma destas categorias faz ou produz coisa alguma senão sua riqueza, que é realmente uma super-riqueza que se distanciou da realidade concreta do mercado, o qual determina como a maioria das pessoas comuns vive”.

Ainda mais, diz ele, “pior ainda, elas competem entre si para aumentar suas riquezas, e o pior de todos os cenários é a forma como os superadministradores, cuja renda se baseia efetivamente na ganância, continuam aumentando seus salários, independentemente da realidade do mercado. É isso o que aconteceu com os bancos em 2008”.

O exemplo mais evidente do qual fala Piketty foi divulgado nesses dias e revela que executivos dos Estados Unidos ganham 331 vezes mais do que um empregado médio. Segundo a pesquisa, os diretores executivos de 350 empresas do país ganharam, em média, US$ 11,7 milhões no ano passado e o trabalhador médio recebeu US$ 35,293 mil.

Para Piketty isso é efetivamente uma forma de roubo, porém, ainda não é o pior crime dos superadministradores. Segundo ele, o que é mais prejudicial é a forma como eles se fixaram na competição com os bilionários cuja riqueza, acelerando para além da economia, sempre ficará fora de alcance. Isso cria em sua opinião um jogo permanente cujas vítimas são os “perdedores”, isto é, as pessoas comuns que não aspiram a tais status ou riquezas, mas que devem ser desprezadas não obstante pelos executivos-chefe, vice-presidentes e outros lobos de Wall Street.

Piketty e sua análise colocou a economia clássica dominante em constrangimento. Se a causa subjacente da catástrofe bancária de 2008 foi a queda na renda, ao lado de uma crescente riqueza financeira, então – diz ele – estas coisas não foram por acaso: não foram produtos de uma regulação frouxa ou de uma ganância simples. A crise é o produto do sistema funcionando normalmente, comenta.

O principal do livro, diz Rana Foroohar, em artigo na Time, é que Piketty “prova de forma irrefutável e clara, o que todos nós, de alguma forma, já suspeitávamos: os ricos estão ficando mais ricos em comparação com os demais e sua riqueza não está indo para baixo, na verdade está indo para cima”.

A análise da Conjuntura da Semana é uma (re)leitura das Notícias do Dia publicadas diariamente no sítio do IHU. A análise é elaborada, em fina sintonia com o Instituto Humanitas Unisinos – IHU, pelos colegas do Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores – CEPAT e por Cesar Sanson, professor na Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN. Esta análise contou também com a contribuição de André Langer, professor na Faculdade Vicentina – FAVI. de Curitiba-PR.

(EcoDebate, 19/05/2014) publicado pela IHU On-line, parceira estratégica do EcoDebate na socialização da informação.

[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]


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