A política nas urnas e no gramado



A extrema polarização que antecedeu a Copa do Mundo no Brasil induziu muitos observadores dos campos em disputa a uma leitura segundo a qual o desempenho tanto da chapa governista quanto da oposição nas eleições presidenciais deste ano terá correlação com o desempenho da seleção brasileira no Mundial.

Segundo esses observadores, um eventual sucesso da seleção beneficiaria a presidente Dilma Rousseff em sua campanha pela reeleição, enquanto a derrota ajudaria a oposição conservadora a angariar votos.

Essa análise, se assim pode ser chamada, é particularmente popular entre os opositores do governo federal. A julgar pela história, porém, não é apenas improvável, mas também fantasioso e leviano considerar que uma fração decisiva do eleitorado é míope ao ponto de fundamentar seu voto no resultado da seleção nos gramados.

Tomemos como exemplo as eleições presidenciais realizadas no Brasil a partir da redemocratização. Com exceção do pleito de 1989, todas as demais votações ocorreram nos meses posteriores à Copa do Mundo.

Somente na primeira delas, em 1994, houve essa coincidência. Na ocasião, a seleção levantou a taça nos Estados Unidos e Fernando Henrique Cardoso, candidato do governo, chegou ao Palácio do Planalto.

Em todos os demais anos de eleição e Copa do Mundo, essa suposta correlação simplesmente inexistiu. Se alguma coisa pôde ser observada, aliás, foi justamente o contrário: o desempenho da seleção em nada influiu nos resultados das urnas.

Em 1998, o Brasil perdeu da maneira que perdeu na final para a França e FHC reelegeu-se em primeiro turno. Já em 2002, a seleção brasileira chegou ao penta e Lula desbancou o PSDB. Quatro anos mais tarde, a seleção foi eliminada precocemente e foi a vez de Lula contrariar essa “sabedoria popular” para reeleger-se. Em 2010, novo fiasco da seleção na Copa do Mundo e nova vitória da chapa governista nas eleições presidenciais. 

É claro que haverá quem vá querer enxergar qualquer eventual coincidência entre o resultado das urnas e o desempenho da seleção como “comprovação empírica” dessa percepção, consistentemente contestada pelo fatos. Assim como houve quem comemorou – em segredo ou em público – quando soube que a gravidade da lesão de Neymar o tiraria da Copa, certamente sem se dar conta de que isso dificultará somente uma campanha, a da seleção brasileira.

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Leia também “Boicotar a Copa“, de Ricardo Gozzi, no especial /megaeventos do Blog da Boitempo:

Confira o dossiê especial sobre a Copa e legado dos megaeventos, no Blog da Boitempo, com artigos de Christian Dunker, Maurp Iasi, Emir Sader, Flávio Aguiar, Edson Teles, Jorge Luiz Souto Maior, entre outros!

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Ricardo Gozzi, 38 anos, é jornalista. Escreveu, com Sócrates Brasilieiro Democracia Corintiana: a utopia em jogo (2002), pela coleção Paulicéia da Boitempo. Colabora com o Blog da Boitempo especialmente para o especial “Brasil em jogo: o legado dos megaeventos”.

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