Filme - 12 Anos de Escravidão (12 Years a Slave) - Crítica

Um olhar de dentro do abismo.

Solomon Northup foi um pai de família dedicado e músico talentoso. Era letrado, inteligente acima da média e espirituoso como poucos. Ele também foi escravo, mesmo tendo nascido livre no norte dos Estados Unidos, mais exatamente na capital Washington.

A história de "12 Anos de Escravidão" veio do próprio punho de Solomon. Seu livro, "12 Years a Slave", é um relato brutal e verídico do período em que foi sequestrado e posto à trabalhar em plantações no estado da Louisiana, em regime de escravidão, junto com muitos outros negros sulistas. 

No período, as diferentes linhas de raciocínio entre o Norte e Sul dos EUA em relação a escravidão - motivação propulsora da Guerra Civil Americana, tecnicamente - se encontravam em uma bifurcação problemática. Existiam os negros livres no Norte, enquanto no Sul os mesmos ainda eram propriedade. Devido a falta de voz e direitos irrisórios dos livres, esse mórbido esquema de sequestro se tornou um artifício a ser efetuado com frequência. No final, dificilmente um escravo conseguiria provar que era um homem livre, ainda mais se estivesse preso no Sul. Ele seria taxado apenas como um negro fujão. Ele seria nada.


Discorrer sobre os acontecimentos desta história é algo que não cabe a esta análise. Cada minuto da obra possui valor inestimável, por isso o conselho é que a mesma seja vista o quanto antes. No entanto, é fato sabido que depois de 12 anos como escravo, Solomon conseguiu novamente sua liberdade. Um final que, obviamente, está longe de ser plenamente feliz. 

O que devemos discutir aqui é qualidade do trabalho enquanto cinema. O diretor Steve McQueen já havia abordado com profundidade as maldições do vício pelo sexo em "Shame", e também retratou com visceralidade a greve de fome de prisioneiros irlandeses no sensacional "Hunger". Mas com "12 Anos de Escravidão" ele foi além do esperado. 

Primeiramente, a abordagem do tema é asséptica e racional. McQueen se preocupa em não se aproveitar da história de maneira oportunista, não desvirtuar o propósito e nem a moral do que está contando. Em outras palavras, ele não faz da fita um instrumento de excessivo melancolismo. Sendo assim, durante a maior parte da projeção, percebemos que não existe a intenção de verter lágrimas da audiência. As cenas despertam outros tantos sentimentos, como o repúdio, a inconformidade e a raiva, mas os momentos de maior dramaticidade são relativamente poucos, no entanto estes nunca serão esquecidos por aqueles que os virem.

O roteiro de John Ridley corrobora esta narrativa. Moldado por uma linguagem poética e classicista, o texto sempre encontra a forma correta de resumir acontecimentos que, de fato, extirpam palavras. Uma construção carregada de argumentos edificantes e passagens memoráveis. Uma adaptação digna de prêmios e condecorações. 

Enquanto isso, a trilha sonora do talentoso Hans Zimmer entoa a cadência necessária que mantém emoção e andamento nos trilhos. As belíssimas melodias usam o silêncio como uma peça estratégica, se revelando sutilmente quando necessárias, se tornando então retumbantes. As cantigas entoadas pelos escravos também são preciosidades a serem reverenciadas. Nestas simples composições temos emulados todos os elementos rítmicos e culturais que posteriormente seriam as raízes da música gospel Afro-Americana, e que até mesmo influenciariam o Blues de Robert Johnson (vide "Roll Jordan Roll").
    
É interessante notar a abordagem de temas complexos propiciados pela história, como por exemplo a estranha realidade dos negros que se viam livres, enquanto outros não possuíam a "mesma sorte". A incapacidade de poder ajudar é um dos mais devastadores sentimentos abordados pelo filme. O vazio no olhar dos personagens exemplifica a dor corrosiva. A incompreensão também nos abate quando vemos um grupo em maior número se submeter a tamanha tortura. Nossa ignorância não consegue alcançar o completo entendimento da realidade daqueles homens e mulheres nascidos escravos.

A força motriz do filme, como foi dito, é sua direção. Mas o empenho do elenco é o corpo que dá movimento a produção. Resumidamente, em termos de comparação com nossa história recente, temos no longa algumas das melhores atuações da última década.

Chiwetel Ejiofor demonstra com exímia dedicação sua formação clássica como ator ao interpretar o protagonista Solomon. Trabalho impecável e eloquente de um profissional simplesmente completo. O genial Michael Fassbender também desaparece por trás da ignorância sádica de Edwin Epps, um dos donos de Solomon durante sua jornada. Já Lupita Nyong'o tem relativamente poucas falas, mas que são mais do que suficientes para que sua personagem Patsey se torne um símbolo dos horrores da escravidão, em suas mais complexas formas: amor, ódio e possessão. 

Temos ainda cenas incríveis com Christopher Berry, Paul Giamatti, Benedict Cumberbatch, Paul Dano, Sarah Paulson e Brad Pitt. Um grupo excepcional de atores, trabalhando de maneira inspirada pela história que Steve McQueen se propõe a contar. Algo memorável de se ver.

No final, "12 Anos de Escravidão" nos descreve um olhar de dentro do abismo. Aquele em que a sociedade escravocrata despejou suas vítimas. Estamos falando de uma queda vertiginosa, que oblitera qualquer resquício de humanidade, que condena pela eternidade quem olha de cima, e que dilacera os que se espremem embaixo.  
A vida de Solomon Northup não foi em vão. Ele foi sequestrado e tratado de forma desumana por mais de uma década de sua vida, mas conseguiu vencer as adversidades, sobreviver e ajudar os necessitados. Só que mesmo assim, diante de incríveis histórias como a deste homem, diante da perda injusta de milhares, parte de nossa sociedade ainda opta pelo abismo, e todo o desespero que ele proporciona.
PS: Aproximadamente 30 milhões de pessoas vivem hoje em regime de escravidão.


12 Anos de Escravidão/ 12 Years a Slave: 2013/ EUA, Reino Unido/ 134 min/ Direção: Steve McQueen/ Elenco: Chiwetel Ejiofor, Michael Fassbender, Lupita Nyong'o, Christopher Berry, Paul Giamatti, Benedict Cumberbatch, Paul Dano, Sarah Paulson, Brad Pitt
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