Filme - Clube de Compras Dallas (Dallas Buyers Club) - Crítica

 
Sobrevivendo, apesar da ignorância dos homens e do sistema.

Novas audiências podem não saber, e as mais antigas talvez tenham esquecido, mas há três décadas atrás o vírus da AIDS era sinônimo de tudo que existe de pior sobre a face da Terra. A doença era tida como maldita, uma sentença que condenava o doente não só a morte, mas também a injúria, preconceito e difamação da sociedade.

Muita coisa mudou desde então. Com os avanços da medicina e o correto entendimento da doença (sendo o Brasil um dos pioneiros destes estudos), hoje é possível que o individuo diagnosticado como soro positivo tenha controle dos sintomas, e consequentemente mais qualidade de vida. Ou seja, a AIDS já não debilita e mata como antigamente. Mas o caminho até aqui foi tortuoso.

E buscando lembrar disso, ou mesmo não esquecer, o filme "Clube de Compras Dallas" remonta a história real de Ron Woodroof, homem que poderia ter sido um qualquer, mas que se transformou em uma pessoa melhor depois de diagnosticado.

Woodroof era o típico caipira de Dallas. Vivia de montarias, apostas, álcool, drogas e sexo, quase sempre desprotegido. Quando a AIDS alcançou seu pico de mortalidade, o grupo mais afetado foi o dos homossexuais. Na época, quem ficava doente era automaticamente enquadrado dentro do grupo. Existiam então dois preconceitos: estar contaminado com o HIV (no início, médicos mal tocavam os pacientes) e também o desprezo por serem descobertos homossexuais. Mas Woodroof era hétero. Ele mesmo carregava a homofobia como uma hereditariedade sulista, o que tornou sua descida ao inferno ainda mais dilacerante.

No entanto, aparentemente, conceitos e crenças se transformam completamente quando não se têm mais nada a perder. O homem queria se curar, ou pelo menos sobreviver mais um momento. E para isso ele precisava de conhecimento, e consequentemente necessitava da ajuda de outros como ele. Mas toda informação divulgada pela imprensa ou centros médicos era, em totalidade, confusa e equivocada. Ninguém sabia ao certo o que estava acontecendo. A única coisa certa era que a AIDS não tinha cura

Sendo assim, Woodroof buscou por soluções na linha de frente. Locais independentes onde o problema era realmente combatido, e não apenas deliberado. Depois de conhecer melhor as características do HIV, ele estava apto a prestar um valoroso serviço, e se o mesmo ganhasse algum reembolso para se manter, que mal teria? Woodroof não era santo, longe disso na verdade, mas ajudou muita gente.

O ponto mais relevante discutido em "Clube de Compras Dallas" é a falta de escrúpulos criminosa da industria farmacêutica, que se revelou em conluio com médicos e a FDA (Food and Drug Administration), órgão governamental que controla e aprova todo e qualquer medicamento comercializado nos EUA. Eles padronizaram o tratamento da doença com um produto específico, o AZT. Sem competidores, o remédio gerava lucro, enquanto sua eficácia era simplesmente ignorada. 
O fato é que o AZT, canonizada como a única droga capaz de tratar a AIDS, tentava, erroneamente, eliminar a doença a qualquer preço, se esquecendo de combater os sintomas, como a baixa imunidade - que no final era o que realmente matava. Liberada inicialmente de forma controlada e burocrática, e envolta por lendas milagrosas, de que seria o elixir da vida que todos almejavam, o medicamento foi também vendido ilegalmente e usado de maneira errada por pacientes mais desesperados.

Por ser altamente tóxico, o AZT despencava ainda mais a resistência de seus usuários, e muitos morreram por isso. Só que o grande problema era que, por todo o mundo, estudos apresentavam outras substâncias mais eficientes no combate da doença. Elas visivelmente fortaleciam os enfermos, só que nenhuma dessas substâncias eram aprovadas pela FDA.

E diante de uma fresta na lei, Woodroof conseguiu "comercializar" estes remédios. Ele viajou o mundo atrás do que havia de melhor no tratamento da AIDS, repassando isso para outros "compradores", que na verdade se tornariam sócios deste "Dallas Buyers Club". Nem é preciso dizer que a ganância do homem, disfarçada de justiça, interferiu.

Resumidamente, "Clube de Compras Dallas" é um filme importante, não só por sua incrível e dramática história real, mas também por sua qualidade técnica. O roteiro da dupla Melisa Wallack e Craig Borten é incisivo ao focar os efeitos devastadores da AIDS, e também as consequências geradas pela ignorância do homem e do sistema. Em contrapartida, o texto engrandece as vitórias de seus personagens, e de maneira simbólica imortaliza estes heróis. Uma narrativa estupenda, carregada de veracidade.

Mas o que faz desta uma produção cinematográfica acima da média é a atuação fenomenal do elenco, encabeçado pelo magricela Matthew McConaughey (que perdeu 22 quilos para o papel). O ator texano, que vem realizando ótimos trabalhos nos últimos anos (vide "Killer Joe", "Bernie", "Mud", "O Lobo de Wall Street" e "True Detective") parece ter descoberto, com honestidade dilacerante, a realidade de seu personagem. O raquítico Woodroof parece tão patético no começo, que algumas risadas nervosas são inevitáveis. Mas sua transmutação, que pode ser qualificada como no mínimo improvável, é algo magistral orquestrado por McConaughey. Ele se reinventa a cada minuto diante de nossos olhos. Cena após cena, somos compelidos a nos atentar em todos os trejeitos do ator, a cada palavra dita com total compenetração. É ver para crer.

Outro destaque é Jared Leto ("Requiem Para um Sonho"), que interpreta o transgênero Rayon. O americano se afastou por um tempo de sua banda "30 Senconds to Mars" para voltar ao cinema (ele não atuava há mais de cinco anos), e podemos dizer que fez uma ótima escolha. Leto desaparece por de trás da maquiagem, perucas, voz fina e escaras de seu personagem, e protagoniza alguns dos momentos mais dramáticos da fita. Tanto Leto quanto McConaughey faturaram estatuetas no Globo de Ouro deste ano. 
Enfim, "Clube de Compras Dallas" é um filme que deve ser visto. Como arte o trabalho apresenta méritos indiscutíveis, e como mensagem, somos compelidos a conhecer melhor uma realidade cruel, de mulheres e homens debilitados e segregados, que lutaram sozinhos contra monstros. Eles foram os primeiros a exigir alguma mudança, que apesar de tardia, chegou. Como disse Matthew McConaughey ao receber seu Globo de Ouro: "Esta não é uma história sobre estar morrendo, e sim sobre continuar vivendo." 



Clube de Compras Dallas/ Dallas Buyers Club: 2013/ EUA/ 117 min/ Direção: Jean-Marc ValléeElenco: Matthew McConaughey, Jennifer Garner, Jared Leto, Denis O'Hare, Steve Zahn, MIchael O'Neil, Dallas Robert.
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