Foi triste. Foi chato. Mas é só um jogo de futebol


É claro que estou #xatiado em ver a seleção brasileira tomando um chocolate no Mineirão. Mas a Alemanha foi melhor em campo. E se esta é a Copa da Zoeira, o time alemão merece nosso respeito: está se divertindo horrores em sua passagem na costa da Bahia. Estada divertida, como o futebol deveria ser.

Não vou dar pitaco em área que não é a minha. Até porque o que não vão faltar são análises buscando culpados e tentando entender o que deu errado.

Mas após consumir todos os memes possíveis e as piadinhas de redes sociais daqui e de fora, religo a TV só para pegar o exato momento em que nosso narrador-mor, Galvão Bueno, diz que consolou seu filho dizendo que há coisas mais importantes na vida e que isso é só um jogo de futebol.

E SÓ AGORA VOCÊ DIZ ISSO, MEU BOM HOMEM?!

E todos aqueles discursos sobre a seleção ser a pátria de chuteiras, as canções de que “somos um só'', os jogos chamados de batalhas e os jogadores de guerreiros, as narrativas que transformam adversários em inimigos, além de toda aquela papagaiada que parte da mídia e das empresas, via anúncios, despejaram em cima de nós – durante décadas – para que encaremos um jogo como a coisa mais importante do universo?

Por mais que seja humilhante essa derrota, concordo com o Galvão da noite desta terça: é só um jogo. Pena que esse não foi o discurso defendido até aqui por muitos dos envolvidos – inclusive ele próprio em transmissões de TV. Isso sem falar de oposição e governo.

Ajudamos a colocar as coisas em um nível em que elas não deveriam estar. E, agora, diante de uma frustração homérica, quando descontrolados ferem gravemente torcedores alemães em pleno estádio, bandidos colocam fogo em ônibus e outros resolvem descontar a raiva em suas comunidades, filhos e família, dizemos “puxa, que coisa''. A responsabilidade é deles, claro, mas quem construiu o contexto nessa perspectiva e de forma tão acrítica?

Como já disse aqui, não somos nós, jornalistas, publicitários e comunicadores, que vamos a público cometer agressões. Da mesma forma que não é a mão de pastores ou deputados que seguram a faca, o revólver ou a lâmpada fluorescente que atacam gays e lésbicas. Mas somos nós que, muitas vezes, na busca por audiência ou para encaixar um fato em nossa visão de mundo, construímos uma visão de mundo. Nela, por vezes, a violência e o linchamento de culpados se torna quase uma necessidade para restabelecer a ordem das coisas.

Enfim, amo futebol e estou me divertindo com a Copa. E como ninguém solicitou minha sugestão, não vou dar. Se alguém tivesse pedido, eu diria: não fiquem tristes por muito tempo. Riam da situação, riam da seleção e, principalmente, riam de si mesmos. Encarem isso como deve ser encarado: perdemos. Eles foram melhores e dignos – porque o estrago podia ser maior. Uma derrota como essa não faz da gente pior ou melhor como povo diante dos outros e de nós mesmos.

E, da próxima vez, bora ser um pouco mais crítico aos discursos que colocam um título como instrumento de reafirmação nacional e de redenção dos pecados.

Afinal, a Copa é tudo. Mas é nada.

PS: Leitores perguntam se não vou falar nada sobre o 9 de julho, como faço todos os anos, em homenagem à mais bandeirante das efemérides. A única coisa possível é que, finalmente, essa data comemorativa parece fazer algum sentido. Fico imaginando os amigos do restante do país tendo que trabalhar hoje de ressaca moral. Aqui, não. Perdemos a (contra)revolução de 1932. Mas, pelo menos, ganhamos um feriado para esta quarta-feira de cinzas de 2014.
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