DROGAS: GENOCÍDIO DOS POBRES

Por REFLEXÕES NA SOCIEDADE

Drogas, maléficas ou benéficas, medicinal ou amoral. Essas são dicotomias disfuncionais que deixam de lado a questão principal: o respeito com outro ser humano. As drogas são, de fato, danosas – em sua maioria – mas o que não podemos deixar de lado é o maior mal delas, não pelo seu consumo direto, e sim pelas consequências de uma caçada desgovernada, governada pelos EUA: A guerra as drogas.

“Toda verdade atravessa 3 fases: é ridicularizada; é violentamente contrariada; é aceita como a própria prova.”

Devemos antes de tudo distinguir os usuários, em 2012 eram 200 milhões de usuários de drogas, destes, 165 milhões eram usuários de maconha, os outros 35 milhões usavam drogas pesadas, mas somente 10 milhões se tratavam de usuários problemáticos. Nessa diferenciação podemos observar o maior problema: A Cannabis. Nós devemos nos perguntar, toda essa violência promovida pela guerra as drogas – guerra à cannabis – vale a pena? Para tanto devemos olhar para os benefícios e malefícios dessas drogas e depois analisar as drogas pesadas, com modelos comparativos.

A maconha se trata de uma droga leve, com menos potencial de vicio do que o café, que certamente causa menos mal do que o álcool. Essa se trata de uma droga relaxante, que leva os usuários a se acalmarem, ou seja, ao contrário do álcool, ela faz com que se reduza a violência naquele que a usa. Os estudos sobre essa droga ainda são poucos, isso se deve a caçada desgovernada dos EUA, em que para se estudar eram necessárias toneladas de burocracia, e o estudo só era aprovado quando se tentava provar que ela faz mal para a saúde. Isso reduziu muito o nosso conhecimento sobre a erva, levando a uma caçada permanente de algo tido como o mal do século, a causadora do apocalipse. O que nós sabemos hoje é que ela age sobre o nosso sistema Endocanabinóide levando a uma alteração química no cérebro, com os efeitos que muitos já sabem, desde o relaxamento, até o aumento de apetite, também aumento da criatividade e perca de memória de curto prazo. Devemos sempre lembrar que há diversas variedades da Cannabis, cada uma com um efeito mais específico, por isso ela se trata de um ótimo auxiliar no tratamento de doenças, como por exemplo o câncer, em que a pessoa perde o apetite, e isso se trata de um fator crucial para saber se ela vai ter uma grande longevidade ou não, ou até pessoas com glaucoma, que começam a perder a visão por conta de uma pressão no globo ocular, usando a maconha, ela relaxa a musculatura ocular e leva a redução da pressão, até salvando a visão do indivíduo. Enfim, as aplicações são muitas, e até onde a ciência sabe, elas são de fato mais vantajosas do que maléficas.

Mas aqui estamos analisando, como já disse no primeiro parágrafo, uma dicotomia disfuncional, se ela fizesse mais mal do que bem, de que importaria? Essa questão não é simples, mas já existem modelos pelo mundo que podem nos dar uma visão mais ampla da questão. 

Antes de tudo devemos falar sobre a guerra as drogas, essa é uma das formas que nossos governantes acharam para poder combater as drogas, atacando diretamente a oferta da droga, ou seja, atacando os traficantes, impedindo a produção delas. Até onde sabemos, isso só criou ainda mais viciados, aumentou o lucro dos intermediários – só pensar no Pablo Escobar – e consumiu recursos preciosos de cada nação para combatê-las, só para no fim aumentar ainda mais o preço das drogas. 

Mais de 32% dos presos no Brasil são traficantes de drogas

Esse modelo levou a população pobre a buscar maneiras mais fáceis de ganhar dinheiro, já que dentro do sistema legal elas se mantém marginalizadas, com subempregos, mal recebendo o suficiente para sobreviver, então o peso entre o risco de ser preso e o dinheiro que irá receber passou a compensar, essa população marginal passou a trabalhar para o tráfico e a repressão aos poucos foi aumentando, principalmente através da pressão dos EUA, então esses já marginalizados passaram a ser presos, e as cadeias começaram a superlotar, atingindo patamares inéditos. Podemos creditar as drogas a onda de criminalidade que temos na atualidade, a maioria das atividades estão ligadas a tal, desde pequenos furtos para o viciado comprar sua droga, até os grandes genocídios, como a ocupação da favela da rocinha pelo exército, para a “pacificação”. Mais de 32% dos presos no Brasil são ou usuários ou traficantes de drogas, pensando presos diretamente por conta das drogas, sem contar as prisões indiretas, por roubo, assassinato, etc. Mesmo assim, até onde isso nos levou? Isso levou ao aumento do consumo de recursos governamentais, ou seja, o seu dinheiro indo para o ralo, aumentou o número de viciados nas ruas e também o poder do tráfico, que possuía cada vez armas mais fortes e potentes, e com a polícia em seu bolso.

A corrida atrás das drogas é um modelo fracassado, que leva ao aumento da violência na nossa sociedade, que só serviu para criminalizar o pobre, isso se trata de um consenso dentro da comunidade científica, que está começando a ser transplantado para a população. Alguns países perceberam a falha desse sistema e começaram a construir sistemas complexos para assim poderem reduzir o número de viciados, e também reduzir a violência nas cidades. Seguindo esse modelo veio Portugal, talvez o modelo de maior sucesso, os governantes decidiram tomar uma ação, não somente buscar votos, mas ir atrás de uma solução durável, deixar de correr atrás de um sistema simples: Droga – acaba com a droga – mundo livre de drogas, mas passaram a ver como algo complexo, que deve ser combatido em diversos estágios. Os olhares se desviaram da oferta, o principal foco foi para a demanda. 

A legalização, ou descriminalização, passou a ser a principal referência para o combate as drogas, quando não há viciados, não há tráfico, porque afinal, você irá vender para quem? Primeiro passo foi entender o viciado como um doente, alguém que não consegue se livrar do vício – humanizar as relações –, então foram criadas clínicas de reabilitação, onde esses usuários poderiam se tratar, com apoio humano, desde psicólogos, até médicos que administravam drogas para poder aos poucos livrar da dependência química, pensando em drogas mais fortes. O segundo passo se tratou da descriminalização das drogas, em que o usuário seria separado do traficante e teria um tratamento diferenciado, não seria sumariamente preso em um local em que há mais drogas do que do lado de fora, ele seria tratado com atenção do governo. O terceiro passo foi a transferência da área de segurança para a área de saúde, em que o importante seria cuidar da saúde desses pacientes, com a distribuição de seringas, ou até de baixas doses de metadona. O quarto passo, que ainda não ocorreu, deveria ser a produção das drogas pelo próprio governo, ou até de pequenas iniciativas privadas com regulamentação governamental – esse é um dos modelos mais utilizados, mas isso deve à caçada dos EUA –, para assim acabar de vez com o tráfico, para que os usuários não precisem recorrer ao traficante, ficando exposto a diversas outras drogas, criando o “efeito escadinha”. Esse passo é talvez um dos mais importantes, pois com a legalização da droga e produção pelo próprio governo, ele pode controlar a quantidade de droga consumida, pode também a qualquer momento convencer o usuário a se tratar, quando não fazê-los passar por psicólogos antes da aquisição da droga, para assim tentar acabar com o vício. O contato com uma autoridade não seria para dificultar a aquisição, mas impedir que haja o incentivo do uso, como há quando essas estão nas mãos dos traficantes.

A cultura é um grande fator de incentivo ao uso

O governo possuindo isso em mãos ele pode aos poucos acabar com os vícios, não com a proibição, mas com a desculturalização da droga. Pensemos em um adolescente, ele gosta do que é proibido, quebrar as leis, quando as drogas são uma forma de rebeldia com o sistema, e os heróis são aqueles que as consumem, se cria uma cultura de consumo de tal, mas quando o seu herói é o cara que está em um hospital para tomar sua dose diária, ele passa a não ter valor mais para o jovem, a imagem de rebeldia acaba, e se torna “careta” usar as drogas. Marrocos pode ser visto como um grande exemplo disso, em que o consumo de haxixe é extremamente comum, porém o consumo de álcool é quase inexistente entre os habitantes, pensando nas vilas tradicionais, não nos grandes centros urbanos. Esse ato se deve a cultura dessa população: Se pensa que é feio consumir álcool, é um ato ridicularizado pela população, pois faz a pessoa ficar fora de si, e apesar de não ser proibido, o consumo é baixíssimo, ao contrário do Haxixe, que recentemente foi proibido, porém a população continua consumindo a altos níveis. A cultura é um grande fator de incentivo ao uso, e tornar isso em algo ligado a saúde, ligado a uma doença, leva a redução do consumo, sem contar o tratamento humano do paciente, que se sente mais confortável em se tratar, talvez até incentivado, pois percebe que não há uma perseguição por parte do governo, mas sim uma tentativa de tirá-lo da rua – muitas vezes eles querem ajuda, mas não sabem como. Tornar o governo em um “amigo” e não um assassino é o fator mais importante para a luta contra as drogas.

O modelo que utilizamos está falido, em que se gasta altos montantes de dinheiro no combate as drogas, mas só leva ao maior encarceramento da população pobre, aumento da violência e criminalização do usuário, que é tratado como um inimigo e não um doente a ser tratado. A legalização é necessária para que violência urbana caia drasticamente, e não digo só a legalização da maconha, não, a legalização de todas as drogas, para assim haver um controle por parte do governo e as pessoas sejam tratadas dignamente. Mas o primeiro passo sempre é necessário, ainda mais para uma população historicamente tão conservadora como a nossa, esse deve ser dado com a legalização da maconha, que se trata da droga com maior uso no país e um dos produtos com maior lucratividade do país, retirando esse poder do tráfico, ele possivelmente irá falir, quando não enfraquecer fortemente, sem falar das incontáveis almas que serão salvas do encarceramento.

Entender a guerra as drogas é uma das formas que temos para poder combatê-la, os motivos por de trás escondem uma intenção imperialista, não interessada no bem estar da população, mas interessada nos interesses burgueses da sociedade estadunidense. Pablo Escobar, grande traficante de drogas, foi um dos maiores contrabandistas de droga para os EUA, o fluxo de drogas era tão grande que passou a incomodar o governo estadunidense, isso por uma só razão, se entra drogas, sai o que? Tudo se resume a trocas comerciais, se você tem Drogas entrando, há dinheiro saindo, ou seja, começou a haver um grande êxodo de dinheiro para a mão de traficantes internacionais, e como tudo está ligado ao “big stick” dos EUA, eles impuseram, através da ONU, uma resolução em que todos os países signatários eram obrigados a proibir as drogas em seus países e reprimir fortemente o tráfico, muitas vezes com a ajuda da CIA: Isso podemos ver, que seja, na série de televisão Narcos. Tudo tem a ver com o interesse dos EUA, que possuía um enorme mercado consumidor, com grande capacidade aquisitiva, assim, potencialmente grandes consumidores de drogas. Essas políticas de restrição de liberdade em países do exterior são classicamente pertentes aos EUA, e certamente são o espelho do fracasso, se em todas ocasiões a imposição pela força deu errado, porque agora daria certo? Não devemos nos render aos joelhos dessas ações irracionais, devemos ser fortemente combativos, para evitar ainda mais o espalhamento da irracionalidade odiosa que eles promovem por todo o globo. A lógica da ditadura para os outros e “liberdade” para nós já não se sustenta, e o primeiro passo para provar que o imperialismo estadunidense é danoso, é pela legalização das drogas, esse deve ser o primeiro grande ato para enfrentar essas injustiças impostas a nós.

A força não é uma solução, não foi e não será, todos os modelos fracassaram e só levaram a um aumento da violência, quando não a genocídios. O que estamos presenciando é um genocídio da população pobre, de viciados a traficantes, “pessoas de bem” ou não, o que está acontecendo é no mínimo ignorância. Nosso modelo tem que ser revisto rapidamente, e só por pressão da população é que algo irá mudar, políticos não fazem revoluções, esses ouvem as demandas das ruas para receber votos. Ser revolucionário é ir contra a onda, melhorar o mundo não é fácil, é uma luta constante, porém no fim vale a pena. Lute contra o conservadorismo, lute por um mundo melhor, lute pela legalização das drogas e humanização das relações. O que não devemos esquecer é o que o Arthur Schopenhauer coloca, “Toda verdade atravessa 3 fases: é ridicularizada; é violentamente contrariada; é aceita como a própria prova.”
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