Ser quem se é: o feminismo que liberta

Texto de Michelle Karen Santos para as Blogueiras Feministas.

Sou filha de Pastor e nasci em uma família onde todas e todos são evangélicos/as, e assim me identifiquei até os 15 anos. Sempre ia para a igreja, cantava, orava e fazia parte de todos os grupos que ali se formavam. Eu era a filha do pastor, a garota que deveria dar exemplo para todos/as, principalmente para as outras garotas.

Cresci vendo as lideranças da igreja sendo ocupadas por homens, e o máximo que uma mulher poderia alcançar era a liderança do grupo de crianças ou senhoras. Os espaços eram ocupados por pastores que diziam que as mulheres deviam ser submissas, comportadas como uma “dama”, cuidadosas, menos fofoqueiras, que deveriam manter relações sexuais com seus maridos mesmo sem querer, que deveriam ter filhos mesmo sem vontade, que deveriam ser sábias e edificar suas casas, que todas as mulheres deveriam ser o que a igreja dizia para elas serem.

E, com o tempo, fui vendo todas as mulheres da minha vida deixando de ser quem elas eram, escondendo suas vontades e servindo aos homens e à um deus, e me tornei a questionadora. Meu pai me dizia que eu não devia fazer tantas perguntas, e que todas as minhas discordâncias em relação à igreja só demonstravam o tanto que eu estava fora da presença de deus, e isso me irritava, porque tudo que ele dizia não respondia minhas perguntas.

Eu não entendia o motivo da nossa vontade não ser respeitada; da nossa existência ser negada todos os dias; de eu ser obrigada a arrumar um marido e ter filhos; de eu não poder me vestir da forma que eu queria; de não poder transar antes do casamento e de me descobrir. Eu era uma jovem que estava fechada em um ambiente cristão, sem poder conhecer nada de diferente, e eu não entendia porque me impediam de ser o que eu queria, até que um dia as minhas perguntas foram respondidas.



No ano de 2012, já na faculdade, fui apresentada ao Coletivo Feminista Roda de Mulheres, e lá conheci mulheres incríveis que me mostraram o caminho para a minha liberdade. Eram várias garotas de todos os cursos se reunindo toda semana para pensar em uma sociedade diferente, livre do machismo, do sexismo, do racismo, da lgbtfobia, do androcentrismo, do patriarcado, elas diziam “lugar de mulher é onde ela quiser”, e tudo fez sentido para mim. Comecei a compreender que a religião estava assumindo um papel de opressão na minha vida, controlando meu corpo, meus atos e minha forma de viver, e não, eu não poderia aceitar.

‘Seja Livre’. Marcha das Vadias de Belo Horizonte 2013. Foto de Maria Objetiva no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Certo dia, uma companheira me presenteou com o livro “A Nova Mulher e a Moral Sexual” de Alexandra Kolontai, meu primeiro livro no meu novo mundo feminista, lá a autora termina dizendo “… o olhar da mulher que luta contra a velha e decadente ordem de vida… (…) Este olhar exige uma resposta, estimula à ação, ao trabalho construtivo, mas também à luta.”, então aquele se tornou meu momento. Ao me organizar politicamente e enquanto militante feminista, desconstruindo e construindo a partir das minhas vivências, entendi que o feminismo poderia me libertar, mas seria uma luta diária e o rompimento com as opressões da religião e com as pessoas que não aceitavam que eu era dona da minha vida, do meu corpo e dos meus desejos, seria consequência. E foi assim que perdi muitos familiares, amigos e amigas, e quase perdi meu pai e minha mãe.

Não aceitavam que eu quisesse ser livre, que tinha e queria exercer minhas escolhas, e que desde então eu passaria a tomar minhas decisões, mas eu resisti. É muito sofrido você perder pessoas, principalmente familiares, mas hoje sei que fez parte do meu processo de libertação, as vezes para você ser feliz é necessário romper laços. No entanto, estou aqui, formada, militante feminista, lutando por uma sociedade sem prisões e opressões, cheia de experiências que me tornaram a mulher que sou hoje, com a certeza que nada poderia ter sido diferente e que amanhã será maior.

Meu pai diz: “eu te amo, mas não concordo com suas ideologias”, a verdade é que a gente aprendeu mais sobre a tolerância e o amor, eu sou feminista e ele é pastor, sou filha e ele pai, e sim, nossa relação está bem melhor hoje, continuo defendo a liberdade de crença, e também a laicidade do Estado. Eu tive péssimas experiências com a religião, mas tenho clareza de que existem várias que propagam muito amor e respeito, na verdade precisamos lutar firme contra o fundamentalismo que coloca em risco o Estado Democrático de Direito. E sobre a minha mãe, foi ela que me ensinou sobre o feminismo, antes mesmo de eu saber que ele existia.

Estamos na metade de 2016, eu com meus 23 anos, um tanto quanto livre, cheia de projetos, com um amor que aquece meus dias frios em terras gaúchas, e feliz, muito feliz por ter rompido laços, porque por mais que doa, nada dói mais que ser oprimida e impedida de ser quem se é. E para todas nós: sigamos em luta, até que todas sejam livres.

Bibliografia

KOLONTAI, Alexandra. A nova mulher e a moral sexual. 2.ed. São Paulo: Expressão Popular, 2011.

Autora

Michelle Karen Santos é advogada, feminista, abolicionista e pisciana.
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