(Livro) Diálogos sobre pesquisa-ação: concepções e perspectivas

ISBN: 978-85-7993-797-2


Autor/Organizadores: Mariangela Lima de Almeida

APRESENTAÇÃO

O DIÁLOGO SOBRE PESQUISA-AÇÃO COM OS
AUTORES-PESQUISADORES
Nada nos autoriza à expectativa de ter a última palavra. (Habermas, 2004a).
Os movimentos sociais, políticos e educacionais ocorridos nas últimas décadas, em diferentes cenários, trazem consigo a busca por uma proposta inclusiva na Educação, assumindo o princípio da Educação para todos (BRASIL, 2008; BANCO MUNDIAL, 2012). A busca pela construção de espaços-tempos que deem conta de lidar com a complexidade do cotidiano escolar, marcado pela diferença e a diversidade humana, impõe-nos a necessidade de repensar a pesquisa científica e seus impactos/transformações na sociedade. Nesta obra, dedicamo-nos a dialogar sobre a necessidade de reconstruir processos de investigação e de formação de profissionais da Educação com base no paradigma da racionalidade comunicativa, com vistas a produzir conhecimentos que respondam aos interesses educacionais de todas as crianças, jovens e adultos, inclusive aqueles que apresentam deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/ superdotação.
Esse cenário colocou-nos diante da complexidade de lidar com a dialética inclusão-exclusão, seja nas escolas, nas universidades e em outros contextos socioeducativos. Impõe-nos outras formas de pensar e conceber a nós mesmos e aos outros. Atravessados pelas contingências históricas, constituímo-nos diferentes uns dos outros, do outro de ontem, do outro de hoje e do outro de amanhã.
Passamos a existir como seres únicos e singulares perante a diferença do outro. De outro ângulo, assistimos, ao longo dos anos, à nossa própria diferença em relação àquilo que nos constituiu ontem e nos faz ser como somos hoje. Assim, é possível pensar no respeito e no acolhimento à diferença do outro, vendo-a como prolongamento de nossa própria diferença, pois é na interação com o outro que desenvolvemos nossa identidade pessoal, “[…] no contexto de certas tradições, em ambientes culturais específicos, e que precisam desses contextos para conservar sua identidade” (HABERMAS, 2004b, p. 35).
Nessa perspectiva, pode ser possível pensar na inclusão do outro, conforme nos propõe Habermas (2004c), inclusão que não significa confinamento dentro de si próprio nem fechamento diante do outro, mas que possa garantir a todos igualdade de direitos numa  política do reconhecimento. “A ‘Inclusão do outro’ significa que as fronteiras da comunidade estão abertas a todos – também e justamente àqueles que são estranhos um ao outro – e querem continuar sendo estranhos” (HABERMAS, 2004c, p. 8).
Esse panorama tem exigido dos pesquisadores uma outra lógica de investigação social e educacional. A pesquisa educacional como vertente da lógica positivista, que postula o distanciamento entre teoria e prática e se mantém preocupada em produzir saberes técnicos com base em regras e normas quantificáveis e previsíveis, tornou-se escamoteadora dos processos de exclusão na escola. Silva e Freitas (2006) propõem a aproximação da pesquisa com a escola.
Assim, é necessária a consolidação dos procedimentos que conduzem o pesquisador para dentro da escola, com vistas a ver e ouvir seus protagonistas. Precisamos de uma crítica inventiva e comprometida com a mudança. Há a necessidade de um outro olhar sobre a ciência, uma outra forma de conceber a racionalidade e a razão a partir de movimentos de busca por quadros teóricos, epistemológicos e metodológicos que permitam romper com a metodologia cartesiana (JESUS, 2008).
É diante dessas questões que, no estudo que compõe este livro, defendemos, assim como outros autores/pesquisadores1, a relevância de metodologias investigativas e procedimentos científicos que permitam “[…] apreender/compreender a prática reflexiva e construí-la em processo” (FRANCO, 2005, p. 439). É nesse sentido que a perspectiva da pesquisa ação, em sua acepção crítica, aponta-nos caminhos que empreendem os participantes em situações sociais para uma forma de indagação autorreflexiva, com o objetivo de compreender seus contextos de referência socioeducativos e transformar suas práticas.
Acreditamos, assim, na possibilidade de fomentarmos a construção de práticas educacionais mais inclusivas, mediante a produção de conhecimentos sustentada pela crítica social, na dialética entre teoria e prática. Se, por um lado, a pesquisa-ação nos traz a possibilidade de construção de conhecimentos pela via do diálogo, da crítica e da reflexão sobre/para a práxis, por outro, a natureza histórica da constituição da pesquisa-ação nas ciências sociais e humanas evidencia sua diversidade conceitual, teórica, epistemológica e filosófica, o que contribui, consequentemente, para a produção de conhecimentos com diferentes intencionalidades, ideologias e intenções sociopolíticas.
As reflexões e diálogos contidos nesta obra são parte do processo vivenciado ao longo de nossa trajetória como professorapesquisadora. Nossa implicação com a pesquisa-ação inicia-se ainda na Licenciatura em Pedagogia. Mas é o estudo realizado durante o Curso de Mestrado em Educação da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) que nos possibilitou aprofundar sobre essa abordagem teórico-metodológica. A pesquisa realizada com a professorapesquisadora nas séries iniciais do ensino fundamental mostrou que considerar os professores como intelectuais requer vê-los autônomos em seus saberes e capazes de reinventar suas práticas a partir da pesquisa. Permitiu-nos, ainda, de acordo com Zeichner (1998, p. 229), “[…] ultrapassar a linha divisória entre os professores e os pesquisadores acadêmicos”.
Ao mesmo tempo, os movimentos gerados naquele processo investigativo (ALMEIDA, 2004) revelaram inquietações acerca dos pressupostos e fundamentos da pesquisa-ação. As discussões sobre as bases, as possibilidades e as lacunas da pesquisa-ação foram impulsionadas pelo estudo de doutorado2, em que problematizamos os pressupostos e princípios teórico-metodológicos e epistemológicos que emergem acerca da pesquisa-ação como perspectiva de investigação na área de Educação Especial (ALMEIDA, 2010). Naquele momento, as inquietações e indagações eram nossas e de outros colegas do grupo de pesquisa3: Como temos produzido conhecimentos, de que natureza, por meio da pesquisa-ação? Até que ponto a pesquisa-ação tem contribuído para o avanço do conhecimento na área de Educação considerando sua complexidade? Essas questões nos instigavam ainda mais a aprofundar sobre os paradigmas, fundamentos e pressupostos filosóficos e epistemológicos da pesquisa-ação e sempre com um olhar atento às diferentes formas de conceber ações empreendidas durante a pesquisa.
A busca pelos princípios e fundamentos da pesquisa-ação puderam, ao longo da última década, ser colocados em xeque, questionados e/ou reafirmados. O desejo de construir uma obra que trouxesse sentidos e significados para além da pesquisa científica foi se constituindo como desafio constante. Foi o encontro – o bom encontro – com os profissionais das redes de ensino que permitiu trilhar um caminho no qual, juntos, experimentamos e nos desafiamos a constituir uma comunidade autocrítica de pesquisadores. Do diálogo com os autores das pesquisas fomos à vivência. Assim se constitui o grupo de pesquisa Formação, Pesquisaação e Gestão em Educação Especial – GRUFOPEES4.
Ao longo da última década, temos estudado, investigado e constituído movimentos que nos permitem construir políticas práticas numa perspectiva inclusiva. A cada dia, somos desafiados pelas tensões e muitas possibilidades desta abordagem complexa e apaixonante que é a pesquisa-ação. É nas demandas advindas desse processo com o outro (alunos, professores e gestores)5 que esta obra toma sentido e relevância. Os diálogos que fizemos com os autores das teses e dissertações na primeira década dos anos 2000 puderam ser revisitados, uma vez que a ação na pesquisa-ação implica diretamente pressupostos teórico-epistemológicos e, ao mesmo tempo, influencia esses pressupostos. As ações desencadeadas ao longo dos últimos anos nos processos de pesquisa com os professores e gestores de Educação Especial foram gerando novas demandas e novos questionamentos e, assim, os diálogos sobre os pressupostos da pesquisa-ação, empreendidos no estudo anterior de doutoramento, tornaram-se essenciais para nossa busca pela construção de uma pesquisa-ação essencialmente colaborativa e crítica. Temos aqui uma dialética inevitável ao processo de investigação: na pesquisa-ação, pesquisa é uma pesquisa da ação que se constitui na ação de pesquisa. “A questão é que a pesquisa-ação requer ação tanto nas áreas da prática quanto da pesquisa […]” (TRIPP, 2005, p. 447).
O livro está organizado em 4 capítulos. Iniciamos destacando os fundamentos e caminhos construídos para o diálogo. Assim, trazemos a pesquisa-ação e seus desdobramentos históricoconceituais, as contribuições de Habermas para a pesquisa-ação colaborativo crítica, a pesquisa da pesquisa-ação e a mediação de grupos nos Círculos Argumentativos.
O segundo capítulo traz o primeiro Círculo Argumentativo no qual apresentamos os argumentos teórico-epistemológicos trazidos pelos autores nas teses e dissertações. Buscamos, assim, apreender os diferentes interesses que guiaram os autores-pesquisadores no processo de construção de conhecimento. Os estudos diferenciam-se e aproximam-se a partir de diferentes abordagens metodológicas, dos aportes teóricos que sustentam a metodologia do estudo e das implicações da crítica, da colaboração e da emancipação nos estudos dessa natureza.
O terceiro capítulo focaliza a utilização do conhecimento pelos autores, no que concerne às ações estabelecidas no processo de pesquisa-ação. Dialogamos com eles sobre o processo de constituição teórico-metodológica e epistemológica de seus estudos, focalizando os diferentes momentos em que ações são empreendidas. O debate centra-se na compreensão de como se dão as relações entre autores e atores na pesquisa-ação, na análise das estratégias utilizadas no empreendimento das ações e nos objetivos dessas ações. Esses aspectos são discutidos a partir de duas perspectivas: o agir estratégico/instrumental e o agir comunicativo.
O capítulo quatro traz nossas considerações e reflexões a respeito do vivido e construído por meio deste trabalho de investigação.
O texto constrói-se no diálogo entre teorias, epistemologias e produção científica; insiste o debate de argumentos entre os autores na busca por entendimentos acerca da pesquisa-ação e convida os outros leitores/autores para novas conversas.
Não tivemos a expectativa de produzir afirmações generalizadas ou absolutas, enumerando passos de como fazer uma pesquisa-ação e, ainda, desvelando falhas e ausências de uns e de outros autores.
Interessamo-nos, isso sim, pelo diálogo da processualidade da pesquisa-ação, captando aprendizagens que nos permitissem reflexões sobre as possibilidades de contribuição dessa forma de investigação no contexto da escola. Acreditamos que “[…] o futuro não pode ser uma continuação do passado, e há sinais, tanto externamente quanto internamente, de que chegamos a um ponto de crise histórica. […]. Nosso mundo corre o risco de explosão e implosão. Tem de mudar!” (HOBSBAWN, 1995, p. 562).
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